O Extraordinário que Deveria Ser Comum

Era para ser simples. 

Um “bom dia” ao cruzar com alguém na calçada.  

Um “por favor” ao pedir o café.  

Um “obrigado” ao receber o troco.  

Um passo para o lado, para deixar quem tem pressa passar.  

Uma pausa antes da faixa, para o pedestre seguir seu caminho.  

Um olhar atento, um gesto mínimo, um toque de humanidade no dia a dia.  

Mas, de repente, ser gentil virou exceção.  

E então a paciência se tornou artigo de luxo.  

A empatia, uma raridade. 

A educação, um traço de personalidade em extinção.  

Briga-se por um olhar atravessado.  

Mata-se por um time de futebol.  

Morre-se por uma ideia política.  

Igrejas rejeitam os creem em Deus por amarem um igual.

Famílias rompem laços por discordâncias nas urnas.

Amizades desmoronam ao som de opiniões.

O mundo ficou barulhento de gritos e vazio de escuta.  

Cada um no seu próprio universo, imerso na tela, alheio ao outro.  

Parece que nos esquecemos de que compartilhamos o mesmo tempo, as mesmas ruas, o mesmo ar.  

E quando alguém segura a porta do elevador ou oferece o assento a um idoso, nos surpreendemos como se estivéssemos diante de um milagre.  

O básico virou extraordinário.  

O respeito, um evento raro. 

Mas será que precisa ser assim?  

Será que o simples ato de lembrar que não estamos sozinhos não poderia, pouco a pouco, devolver ao mundo a delicadeza perdida?  

Era para ser simples. 

Ainda pode ser.  

Karina Zeferino

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