É preciso coragem para saltar de paraquedas, pular uma fogueira e mergulhar em alto-mar.
É preciso coragem para ser bombeiro, policial — e até professor.
É preciso coragem para doar um órgão, dar à luz a um filho ou enterrar um pai.
Mas nada na vida exige mais coragem do que se entregar ao amor.
Amar e ser amado talvez seja a maior busca dos seres humanos.
Porém, as pessoas têm medo de se entregar — e amor sem entrega é limitado. Raso. Pequeno.
Amar é se perder. Perder o controle.
É se deixar ser levado para onde não se conhece.
É arriscar se machucar, cair, levantar.
É arriscar a própria sanidade para conhecer a felicidade.
A maioria dos que desejam o amor não está pronta para sequer metade desses riscos.
Com o tempo, o ser humano vai ficando mais experiente, mais maduro… e mais duro.
Coleciona histórias de perda, de desamor, de frustração.
Como forma de proteção, se blinda da entrega — acreditando que esse é o segredo para não sofrer.
Pobre humano.
Não entende que, quanto mais se fecha e tenta se proteger, mais longe fica de viver o amor.
O amor precisa de ação.
E ação precisa de desejo.
Mas esse desejo exige coragem.
Coragem de se despir.
Coragem de mostrar-se tal como é.
Coragem de desfazer-se das máscaras sociais.
Coragem de estar vulnerável.
A vulnerabilidade é um lugar que a maioria esconde a todo custo.
Assusta, porque não existe entrega sem perder o controle.
Mas também não se conhece o verdadeiro potencial do amor sem se entregar por inteiro.
Se entregar é se perder de si sem perder a individualidade.
É se deixar conduzir sem esquecer para onde se vai.
É experienciar o novo sem apagar o passado — e, ao mesmo tempo, perdoá-lo para que não impeça o futuro.
Se entregar é despir-se dos medos, preconceitos e traumas.
É permitir-se ser amado tal como o outro ama.
É amar com o coração, sem deixar que a racionalidade tome as rédeas.
A entrega exige disposição e vontade.
Paciência e aceitação.
Desconstrução de quem se pensava ser — e apropriação de quem se é.
É coragem.
Coragem para trocar a impessoalidade desejada, a performance ensaiada e o roteiro previsível de uma noite de prazer, por toda a natureza desajeitada, cheia de manias esquisitas e responsabilidades reais — com pessoas reais.
É fácil ter uma noite com alguém escolhido em um cardápio de aplicativo, e não precisar ligar no dia seguinte.
Difícil é conquistar, todos os dias, alguém com ideias profundas, atitudes saudáveis e humor leve.
E isso — isso exige coragem.
Coragem para adormecer profundamente nos braços de quem conhece seus sonhos.
Coragem para acordar ao lado de quem conhece seus medos.
Coragem para viver nu diante de quem decifra seus sentimentos com um olhar.
Coragem para estar com quem vê suas imperfeições e, mesmo com liberdade para ir, escolhe ficar.
Amar alguém também exige sabedoria.
Sabedoria para entender que todos somos imperfeitos, que temos altos e baixos, que choramos, que sofremos — e que isso se chama: viver.
O amor e a entrega não são produtos de cálculo matemático.
Não há fórmula ou receita que sirva para todos.
O que se sabe é que um só existe quando há o outro.
Num mundo onde as pessoas fogem de compromissos e responsabilidades, o amor está cada vez mais raro — ou superficial.
Amar é morrer e deixar morrer.
É matar idealizações e amar o real.
Gostar do jeito estranho do outro ser.
Aceitar as diferenças.
Entender que são elas que fazem o encaixe.
Se deixar ser amado é permitir que partes de você morram: a individualidade cega, o egoísmo, o personagem da perfeição.
Mas sem permitir que você inteiro morra com elas.
Se entregar é abrir-se a novas possibilidades.
Pisar em solos desconhecidos.
Deixar de lado expectativas irreais e desejar viver o que é verdadeiro.
Se entregar é estar disposto a ouvir opiniões diferentes, arriscar errar e ter que pedir perdão, arriscar amar e não ser amado, se dedicar e talvez não ser correspondido.
É enfrentar a instabilidade, a insegurança, a incerteza que existe dentro do peito do amante, e, ainda assim, não conseguir ficar longe.
Apesar disso, quando o amor chega, todas essas possibilidades dão lugar a companheirismo, reciprocidade, cuidado, carinho e momentos de intensa conexão.
E quando se vive o verdadeiro amor, tudo vale a pena.
Mas não se pode amar sem se amar.
Nem se entregar sem se conhecer.
Nem viver sem conviver — com você, antes de tudo.
É preciso conviver com seus próprios vazios, entender seus desejos primitivos, aceitar seus sonhos insanos, acolher sua vida imperfeita.
É preciso saber quem você é, abraçar seus abismos, e então, quando o amor chegar, não entregá-los a alguém na esperança de serem preenchidos.
Mas sim, entregar-se para transbordar.
Karina Zeferino


