Pelo direito de não sentir medo

Hoje, uma quinta-feira comum, pouco depois das 18h, decidi comprar pão numa padaria recém-inaugurada no bairro. Como eu, vários moradores também passavam por lá para experimentar os produtos, atraídos pelas degustações e a vitrine elegante.

Enquanto meus olhos percorriam os doces — minha paixão assumida da culinária — deparei com uma cena inusitada para a cidade de São Paulo, ao menos para mim: um casal apaixonado se beijava — com vontade — entre as prateleiras de pães e cafés, ao alcance de todos os presentes.

Se abraçavam, trocavam carícias como dois adolescentes. Mas pareciam ter seus 60 e poucos anos.
Sorri.

Por um momento, esqueci o que procurava e me perdi imaginando…
Será que já comemoraram muitas décadas juntos? Ou era paixão recém-chegada, dessas que acendem a alma?
Não sei.
Só sei que fiquei feliz por eles.

Sei o quanto o amor — seja ele um furacão ou uma brisa mansa — pode despertar essa vontade de se agarrar em qualquer lugar, até no meio da padaria.

Lembrei de uma vez em que eu e minha esposa estávamos fazendo compras em um supermercado. Tocava uma música ambiente gostosa e, entre os corredores de guloseimas e produtos de limpeza, começamos a dançar.

Esquecemos da hora.
Não vimos mais ninguém ao redor.
Naquele instante, existíamos apenas nós, fundidas no mesmo passo.

Quando a música terminou, a emoção era tanta que tudo o que eu queria era fazer exatamente o que aquele casal da padaria fazia: beijar.
O desejo era recíproco.
Sentíamos.

Mas não fizemos.

Nos olhamos fundo, apertamos nossas mãos, trocamos aquela piscadinha demorada com os dois olhos — dizendo, sem palavras, que a vontade era verdadeira — e nos afastamos. De cabeça baixa.

Mesmo transbordando amor, tive medo.
Medo de que nosso beijo fosse visto como provocação à família. Como mau exemplo para crianças.
Mesmo sem ter crianças por perto.

Medo de sermos ofendidas.
Medo de sermos agredidas.
Medo de sermos.
Medo de amar.

Pura e simplesmente porque meu amor tem o mesmo gênero que eu.

Bateu tristeza.

Quantas pessoas sentem esse medo?
Quantas já passaram por situações que ainda são só fantasmas na minha cabeça?
Quantas já não estão vivas para contar?

Muitos lutaram e morreram para que hoje não sejamos mais vistos como doentes.
Isso é tão louvável quanto é pesado.

E ainda há muito caminho pela frente.

Perdida nesses pensamentos, vi o casal da padaria afastar os lábios e uni-los de novo, sem se importar com quem estava em volta.

Meu sorriso apagou.
Não por eles.
Desejo que todos encontrem lábios que combinem tanto, que nem a fila do pão os separe.

Apaguei por mim.
Pela minha esposa.
Pelos meus amigos. Meus alunos. Meus colegas.
Pelas milhares de pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+, e que não têm a mesma liberdade de expressar o amor em público.

Se é certo ou não que qualquer casal se beije na padaria?
Deixo essa discussão para depois.

O que me pergunto agora é:
Por que para alguns isso sequer é questionado, e para outros, é silenciosamente proibido?

Karina Zeferino

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