Sempre gostei de ser mulher.
Nas brincadeiras infantis, adorava tudo o que fazia parte do universo feminino: calçar salto alto, pintar as unhas, arrumar os cabelos…
O jeito relaxado com que meus primos viviam, aos meus sete anos, me parecia ruim. Feio.
Anos depois, entendi que a eles nunca foi cobrado ser diferente disso.
Enquanto eu usava vestido e não podia me sentar de pernas abertas, eles estavam confortáveis em seus shorts, sem camisa.
Enquanto minhas sandálias dificultavam minha corrida, eu desejava estar com os pés no chão como eles.
Enquanto ganhava bonecas que já me ensinavam, implicitamente, a cuidar, eu queria brincar de Autorama e jogar futebol com os meninos — e era sempre a “café com leite”. Minha avó os obrigava a me aceitar no time por cinco minutos, só para eu não ficar emburrada.
E como eu ficava emburrada.
Irritada com frases como:
“Dá um beijo no seu tio”,
“Isso não é coisa de menina”,
“Para de ser chata”.
Mais ainda quando, por ter opinião ou desejar algo diferente do que esperavam de mim, era chamada de egoísta, ruim ou desobediente.
Eu só queria poder escolher o que era bom para mim.
A primeira percepção concreta que tive da diferença entre meninos e meninas foi quando meus primos passaram a sair sozinhos, e eu não podia — apenas por ser mulher.
A segunda foi quando, finalmente podendo sair, eu ficava em casa com cólicas, tentando entender, por anos, como lidar com a menstruação.
A partir daí, descobri que seria tratada com desigualdade em diversas ocasiões.
Aos 20 anos, precisei levantar a voz para ser ouvida na faculdade, enquanto colegas homens falavam qualquer coisa e eram levados a sério. Fui chamada de histérica.
Aos 30, me indignei com o assédio no trabalho — mas a culpa, diziam, era do meu sorriso aberto, da roupa justa, do meu “jeito professora de ser”. O que isso significava? Nada. Apenas uma desculpa para culpar a vítima. Afinal, para justificar o comportamento de um homem, qualquer motivo serve.
Aos 35, achei injusto ter que fazer uma escolha definitiva sobre maternidade — afinal, meus óvulos tinham validade.
E se eu escolhesse não ser mãe? De que valeria minha vida? Para muitas pessoas, filhos são “o maior amor do mundo”, e nada além disso importa.
Homens não enfrentam essa cobrança. Podem ser pais ausentes, pais de fim de semana, e ainda assim são chamados de “superpais” se fizerem o mínimo.
Aos 40, me chamaram de velha por causa dos fios brancos. Diferente dos homens, que ganham o adjetivo “charmoso” ao ficarem grisalhos.
E mais!
Se pensarmos na pressão estética — beleza, magreza, procedimentos, cuidados com pele, cabelo, corpo, até joelho, mulheres são vítimas a vida toda.
De nós se espera tudo isso, e ainda: falar baixo, não usar palavrão, ser educada, sorrir mesmo quando não queremos.
A lista é longa.
Podemos ter opinião, mas sem impor.
Podemos ser vaidosas, mas não demais.
Podemos ser quem quisermos, mas só se for dentro do padrão hétero-normativo-social.
Fora dele, não seremos aceitas.
Não vai se casar? Não será respeitada.
Quer uma profissão considerada masculina? “Se coloque no seu lugar.”
Não tem um homem ao lado? Não será protegida.
Quer se casar com uma mulher? “É porque nunca foi bem comida por um homem.”
Não quer ser mãe? “Então não está cumprindo seu papel.”
Aborto? “Você não tem esse direito.”
Apanhou? “O que fez para deixá-lo nervoso?”
Foi estuprada? “Deu mole.”
Está solteira aos 30 e poucos? “Não é boa o suficiente para segurar um homem.”
Já namorou muito? “Não serve para casar.”
São tantas camadas.
Perguntas feitas a homens teriam respostas como: charmoso, forte, viril, garanhão.
Eles são exaltados.
Eles não são cobrados.
A eles é permitido o que a nós é negado.
É só observar como são tratados um pai solo e uma mãe solo.
Até o tempo parece passar diferente sobre os corpos masculinos.
Então sim — mesmo gostando de ser mulher, mesmo amando minha feminilidade — às vezes sinto uma honesta inveja do masculino.
Karina Zeferino


