Millennial. Eu sou da última geração que conheceu o mundo sem internet. Sei como é viver sem Wi-Fi, sem redes sociais e sem notificações apitando a cada segundo. Sei como era se perder e pedir informação para estranhos na rua. Sei como era combinar um encontro e simplesmente confiar que a pessoa apareceria, sem a necessidade de mandar um “tô chegando” no WhatsApp.
Lembro-me de quando as conversas eram olhos nos olhos, sem a mediação de telas. Quando amizades eram seladas em diários compartilhados e não em curtidas e seguidores. Quando cartas demoravam semanas para chegar, e isso não era um problema – era parte do encanto.
Fui criança antes do wi-fi, quando brincar era sinônimo de correr na rua, subir em árvores, rodar pião e pular elástico. Os videogames existiam, mas tinham hora certa e exigiam que os amigos se reunissem no mesmo sofá, disputando quem seguraria o controle. Hoje, as brincadeiras ainda acontecem, mas muitas vezes através de telas: as crianças jogam em grupo, cada uma em sua casa, conectadas pelo fone de ouvido, vivendo aventuras lado a lado sem sequer dividir o mesmo espaço. A infância mudou de cenário, e, com ela, a forma de construir memórias.
Já fiz ligação em orelhão com ficha e depois com cartão, torcendo para que a pessoa atendesse, porque não havia como mandar um “me liga de volta”. Já enviei e recebi telegrama e fax. Escutei discos de vinil e fitas K7, rebobinando com a ponta da caneta. Vivi o auge do walkman, do discman e da fita VHS – que precisava ser rebobinada antes de ser devolvida, aliás, gostava mais de passear na locadora do que perambular com a seta do controle remoto pelo catálogo do streaming.
A espera fazia parte da vida. O filme só passava no horário certo na TV, e se perdesse, paciência – na maioria das vezes eu dormia e torcia para passar logo na sessão da tarde. O álbum de fotos tinha revelações surpresas, sem filtros, sem retoques – com pés ou cabeças cortadas pela câmera que usava filme de até 36 poses. As notícias chegavam pelo jornal impresso ou pelo rádio, e a gente aceitava que nem tudo era para ser instantâneo. Só o miojo.
Então a internet chegou. Primeiro tímida, com conexão discada e aquele barulho característico que interrompia o telefone. Depois, veloz, onipresente, ocupando cada canto da nossa existência. De repente, tudo se tornou em imediato. As respostas, os encontros, as despedidas.
A paciência se tornou obsoleta, a espera virou sinônimo de ansiedade. As locadoras sumiram, as ligações caíram em desuso, o diário virou um feed público, a vida virou pública e a atenção se fragmentou entre mil notificações. O mundo acelerou.
Eu faço parte da última geração que viveu o antes e o depois. Que sabe como era ter tempo sem precisar correr atrás dele. Que viu o mundo se conectar, mas, por vezes, se desconectar de si mesmo.
A internet nos trouxe um mundo sem fronteiras, onde tudo está ao alcance de um clique. Encurtou distâncias, facilitou o acesso ao conhecimento, nos deu voz e espaço para compartilhar histórias. Hoje, encontramos respostas em segundos, revemos fotos antigas na nuvem e conversamos com quem está do outro lado do planeta sem custo algum. O tempo ganhou velocidade, a informação se multiplicou, e o mundo ficou mais conectado do que jamais imaginamos.
Mas, entre o que ficou para trás e o que conquistamos, será que ganhamos mais do que perdemos? O que você acha?
Karina Zeferino


