Guardem as flores

Se precisamos de um dia, é porque ainda contamos nossas mortas. Porque há quem precise lembrar que existimos para além dos estereótipos, para além dos papéis que nos impõem, para além da aceitação do que nos machuca. Se precisamos de um dia, é porque ainda nos interrompem, nos subestimam, nos julgam. Porque ainda duvidam da nossa capacidade, nos silenciam, nos culpam pelo que sofremos. Porque nossos passos são vigiados, nossos corpos julgados, nossos direitos contestados.

Dizem que conquistamos muito, e não é mentira. Mas a liberdade que nos permitiram veio cheia de condições. Podemos estudar, mas há quem nos diga que certas áreas não são para nós. Podemos trabalhar, mas nossos salários ainda valem menos. Podemos votar, mas nossas representantes sofrem violência política. Podemos falar, mas nem sempre somos ouvidas. Podemos andar sozinhas, mas nunca sem medo. Podemos amar, mas corremos o risco de morrer por isso.

E então chega o dia 8 de março. Flores nos são entregues com mãos que, tantas vezes, já apontaram contra nós. Como se um presente pudesse cobrir o peso da história, das estatísticas, dos gritos abafados. Não queremos rosas. Porque sabemos o que acontece quando uma flor é arrancada do jardim: ela murcha, perde sua força, sua essência, sua vida.

O mesmo acontece com todas as mulheres quando uma é arrancada do mundo antes do tempo.

Eu não estou louca, nem “naqueles dias” e muito menos tendo uma crise histérica. Eu estou com raiva. Com raiva pela menina Vitória Regina. Com raiva pela jornalista Vanessa Ricarte. Com raiva pela minha mãe, pela minha amiga. Por mim. E por todas as mulheres que já atravessaram a rua, apertaram o passo, abaixaram a cabeça, mandaram a localização do Uber, trocaram de roupa ou ficaram caladas. Por todas que já sentiram medo. Por todas que já foram tocadas sem sua permissão.

Por isso, hoje, guardem as flores. Tragam respeito. Justiça. Mudança. Porque não queremos ser pétalas murchas. Queremos ser raízes firmes, vivas, livres.

Karina Zeferino

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