“Seja leve.”
Eles dizem, com um sorriso que não pede, ordena.
Leve como uma brisa, como um enfeite, como algo que não incomoda, não questiona, não pesa.
Leve como as mulheres foram ensinadas a ser.
Riam das piadas.
Falem de trivialidades.
Não tragam à mesa conversas incômodas, não apontem as desigualdades, não exijam mudanças.
Não sejam feministas demais.
Não sejam sérias demais.
Não estraguem a noite.
Mas ser leve nos fez carregar o peso do silêncio.
Nos fez engolir o choro, aceitar o abuso, sorrir quando queríamos gritar.
Nos fez baixar os olhos quando queríamos enfrentar.
Nos fez acreditar que nossa dor era frescura, nossa raiva era exagero, nossa luta era um capricho.
Fomos leves enquanto eles governavam, decidiam, decretavam.
Fomos leves enquanto éramos pagas menos, interrompidas mais, desacreditadas sempre.
Fomos leves enquanto eles riam da nossa seriedade e se beneficiavam da nossa distração.
Mas agora, agora não.
Agora sabemos que ser leve nunca nos protegeu.
Que ser leve nunca nos deu espaço.
Que ser leve nunca nos deu voz.
Agora somos firmes.
Agora pesamos, incomodamos, exigimos.
Agora somos tempestade, trovão e incêndio.
Eles pedem leveza porque sentem o peso do nosso despertar.
Mas já é tarde.
Nós não voltaremos a ser brisa.
Karina Zeferino


