O Último Nome Chamado

O que se apaga primeiro? O homem ou o som do seu nome no mundo?

Alguém que já foi tudo, um dia, torna-se ninguém. Não porque deixou de existir, mas porque deixou de ser lembrado.

Primeiro, param os convites. Depois, as mensagens. Um dia, o telefone toca pela última vez sem que ninguém saiba que foi a última.

E então, o silêncio.

Havia um tempo em que João era muitos. Era filho, irmão, amigo, colega, vizinho, convidado especial. João tinha uma história contada em abraços, em festas, em sorrisos compartilhados. Mas o tempo não pergunta se queremos ir devagar. Ele vem, leva nomes, leva rostos, leva vozes.

A esposa se foi primeiro. Derrame. Súbito, definitivo. Numa quarta-feira, ela ainda lavava a louça. Na quinta, não estava mais. Depois disso, João esqueceu o gosto da conversa à mesa, os sons miúdos que fazem uma casa ser casa.

Os amigos tentaram. No início, ligavam. Depois, João passou a esquecer de retornar. Depois, pararam de insistir.

Filhos? Não teve. Sobrinhos? Longe.

A vizinha do andar de baixo estranhou o cheiro.

Bateram à porta.

Ninguém respondeu.

Dentro, João esperava. Não por socorro, nem por milagre. Esperava sem saber que esperava. Como se a vida tivesse se tornado um longo intervalo entre o último chamado do seu nome e o silêncio que o engoliu.

A porta foi arrombada. Encontraram João na poltrona, olhos fechados, um livro no colo, como se o tempo tivesse apenas esquecido de avisá-lo que já era hora de partir.

Os vizinhos sussurraram no corredor. Disseram que era um bom homem. Que sempre acenava. Que um dia foi muito ativo.

Foi.

No dia seguinte, uma senhora comentou no mercado: “morreu sozinho”.

Sozinho.

Mas morrer sozinho é apenas o final. O começo é viver sem ser notado.

João foi alguém que um dia preencheu salas, que fez promessas, que sonhou em voz alta. João foi riso em conversas, rosto em fotografias, voz em telefonemas.

Até que um dia, João foi ausência.

O que nos mata não é a morte. É o esquecimento.

Karina Zeferino

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