Tudo parecia igual ao meu redor, o mundo não parou para que eu pudesse sofrer a minha dor. Meus olhos enxergavam tudo cinza, os ouvidos não escutavam som algum. Tudo parecia se movimentar em câmera lenta. Me vi no meio de muitas pessoas, mas nunca me senti tão sozinha.
Abro os olhos impactada ao relembrar a cena. Olho ao redor e o silêncio me abraça. Houve um tempo em que eu não me sentia bem em estar comigo mesma, aliás, posso dizer que eu fugia de mim. Não sei se foi o tempo cinza lá fora, a xícara de chá cinza ou o cobertor cinza que me reportaram diretamente para um tempo em que minha vida era tingida dessa cor. O cinza não é branco, nem preto, assim como eu era, nem feliz, nem triste. Eu existia sem querer existir. Confesso. Sinto vergonha e me culpo, não pela vida que vivia, mas por querer não vivê-la. Pedi a Deus que fizesse por mim o que eu mesma não tinha coragem. Não queria perder a vida, eu só queria Arrancar-A-Minha-Dor. Dor! A dor não era cinza, era vermelha intenso; ela pulsava viva em mim com mais força do que eu colocava os pés no chão. Ela me dominava e me aninhava. Ela era a razão de querer morrer da mesma forma que a razão por estar viva. Através dela eu sentia. Dor. Mas sentia, e isso me fazia viva. E eu queria viver. Parece contraditório, mas era a dor que eu queria deixar. Naquele momento nada fazia sentido, eu não via como caminhar daquele jeito, porém não sabia outra maneira de continuar. Eu era cinza. Meus olhos não mais brilhavam, o viço em minha pele se esvaiu, a alegria de viver sumiu. Minha maior raiva era que o mundo continuava colorido, as pessoas continuavam sorrindo, os compromissos continuavam existindo. Apesar disso ninguém via que eu continuava… cinza. Ninguém percebeu quando meus olhos se apagaram e meu sorriso se escondeu; estavam todos prestigiando o laranja do nascer do sol, o verde das árvores, o azul do céu. E quanto mais eu tentava ver o que eles viam, mas cinza eu enxergava. E me tornava. Não sei quanto tempo se passou, mas devem ser anos, pois estou com alguns fios de cabelo brancos e a pele ressecada revela umas marcas que não estavam aqui antes. Mas cansei. Cansei de esperar alguém fazer por mim o que só eu conseguiria. Foi difícil tirar as lentes que escondiam o abuso, foi doloroso arrancar o véu que mascarava a vida que eu não tinha escolhido para mim. Foi penoso me desvencilhar da roupagem que me fazia permanecer onde eu não cabia. Contudo, apesar da dificuldade em me levantar, do peso que foi começar a caminhar, o mundo foi ficando menos… cinza. Aos poucos as cores foram se revelando num arco-íris colorido e encantador, e quase que não continuo de tão acostumada que estava a não enxergar. A felicidade era um tanto quanto reluzente demais para quem estava acostumada a viver triste. Mas continuei. Agora que tinha começado não iria mais parar. Depois que me levantei, só o voo era aceitável. Em algum lugar dentro de mim eu sabia que conseguiria, em algum lugar escondida em mim estava a ânsia por viver que nem eu conhecia. Foi assim que me matei. Morri para a vida cinza que me oprimiu, reprimiu, iludiu. A vida cinza que me abusou, maltratou, renegou. Cinza que me permitiu não perceber que para além de mim existia um imenso mundo cheio de cor. Foi então que renasci. Ao olhar para traz percebo claramente qual foi o dia em que respirei sem ajuda dos aparelhos. O dia em que caminhei com minhas próprias pernas. O dia em que enxerguei as cores mais belas que existem na face da terra. Foi quando me escolhi. No exato momento em que decidi romper com tudo o que queriam que eu fosse e construir a mim mesma. Do jeito que eu quisesse, sem culpa e sem vergonha. Uma nova vida dentro da vida. Da cor que eu quisesse ser.
Karina Zeferino


