Vivemos em um mundo onde tudo precisa ter uma serventia, uma função, um motivo prático. O tempo livre deve ser produtivo, os sentimentos precisam ter uma utilidade, e até o descanso deve ser justificado como recuperação para mais trabalho. Mas e aquilo que não se mede? E o que não serve, mas nos completa?
Amamos sem motivo, rimos sem necessidade, dançamos sem destino. O que seriam dessas coisas se fossem obrigadas a provar sua utilidade? O amor perderia a magia, o riso se tornaria um cálculo, a dança uma equação.
Nos vendem a ideia de que apenas o que se mede importa. O trabalho rende dinheiro, o estudo gera oportunidades, o esforço traz resultados. Mas e o que simplesmente é? A amizade que sustenta, o carnaval que colore, o vento que bagunça o cabelo e refresca a pele depois de um dia quente? Esses não cabem em planilhas, mas são o que nos mantêm vivos.
Talvez seja por isso que alguns se incomodam tanto com o que não tem serventia. Porque gostariam de aproveitar, mas não sabem como. Porque foram treinados para ver apenas valor e não significado. Mas a vida, no fim das contas, se escreve no que escapa da lógica, no que transborda sem pedir permissão.
Viva tudo que não serve. O beijo que não paga conta, o passo dançado no meio da rua, o brilho nos olhos, o sol pintando sardas na pele.
Viva o abraço demorado, o encontro sem pressa, a risada que escapa e ecoa sem pedir permissão.
Viva o que não mede, o que não pesa.
Porque no que não serve é onde a vida acontece.
Karina Zeferino


