São 7h30 da manhã.
Nos planos, já era para ter meditado, feito yoga, escrito um texto e levado o cachorro para passear. Na prática, os olhos ainda se acostumam com a luz. A mente desperta devagar, mas já carregada: pensa em tudo o que não foi feito e em todos que — provavelmente — já fizeram.
Há um mal-estar silencioso em acordar com a sensação de atraso.
De não acompanhar o ritmo do mundo.
De não ser suficiente diante das promessas feitas na noite anterior.
A cabeça pesa, o corpo reclama.
É a dor do treino de ontem, da responsabilidade de sempre, da autocobrança disfarçada de disciplina.
A alma também dói: pelas metas inalcançáveis, pela produtividade vendida como virtude, pela esperança infantil de um dia começar perfeito.
Ainda assim, é preciso levantar.
Banho. Café. Quem sabe a dignidade venha depois do primeiro gole.
Faz-se a tapioca com ovo, enquanto o pensamento insiste no pão com manteiga.
É terça-feira. A balança foi cancelada, o IMC desacreditado, mas a antiga versão de si mesma ainda cobra por um corpo idealizado.
E então, a vida segue.
Faculdade, trabalho, compromissos, filas, e-mails.
O que é urgente se impõe sobre o que é importante.
Há quem vá à academia porque não ir é ainda pior, já se sabe disso por experiência própria.
Há quem fuja para as redes sociais por alguns minutos, só para esquecer do dia, e acaba lembrando do quanto a vida dos outros parece mais leve.
A comparação já não engana como antes, mas ainda cutuca.
O algoritmo conhece nossos desejos melhor do que nós.
Promete felicidade em cinco passos, equilíbrio em três hábitos, paz interior com uma respiração consciente.
Chega o fim do dia.
Na teoria, ainda há tempo para assistir aquele documentário, ouvir o podcast que saiu ontem, pôr a roupa na máquina e preparar um jantar digno de alguém que se cuida.
Na prática, resta energia apenas para alimentar o cachorro — ele, sim, depende da gente.
Depois, um banho rápido e o velho ritual de deitar “só para descansar as pernas”.
E quando se dá conta… o dia acabou.
Amanhece de novo.
Com mais cansaço do que no dia anterior.
E com a mesma culpa que insiste em acordar cedo.
A verdade é que a vida não se encaixa num cronograma perfeito, e as pessoas não são checklists ambulantes.
Somos feitos de promessas que não cumprimos, de desejos adiados, de vontades contraditórias e tentativas diárias de sermos melhores, mesmo sem saber exatamente o que isso significa.
Ser humano é ser rascunho constante.
E talvez, no meio do caos e da cobrança, o que nos salve seja simplesmente admitir:
somos assim mesmo.
Porque metade de mim é contradição.
E a outra também,
Karina Zeferino


