Sempre idealizei o ser humano como essencialmente bom.
Hoje sei que ninguém é só bom ou só ruim.
Todos carregamos partes luminosas e partes sombrias
nos pensamentos, nas crenças, nos valores, nas atitudes.
E mais ainda: tudo isso depende de quem olha.
O que é bom pra mim, pode ser destrutivo para o outro.
Por muito tempo, tentei manter a crença na humanidade.
Diante do caos, alguém me disse:
“Existem mais pessoas boas do que ruins no mundo, elas só não são notícia.
Se fosse o contrário, o mundo já teria ruído.”
Abracei essa ideia como uma âncora.
Se ainda havia mundo, era porque havia mais bem do que mal, certo?
Sempre que alguém dizia “a humanidade não deu certo”,
eu rebatia, otimista, com argumentos a favor dela.
Mas esses argumentos ruíram
quando comecei a estudar mais profundamente a própria humanidade.
É verdade que o conhecimento liberta.
Mas, nesse caso, o conhecimento me quebrou.
Fez ruir, à marretadas, o castelo da minha idealização.
O que vejo hoje me intriga, me desola, me enfurece.
E o mais cruel: sempre esteve lá.
Desde sempre.
Pessoas maldosas com poder demais.
Governos a serviço dos próprios interesses.
Ricos explorando pobres.
Milícias dominando o que o Estado abandonou.
Corrupção institucionalizada.
Polícia que mata em vez de proteger.
Escolas que alienam mais do que educam.
Pais que odeiam em vez de amar.
Pessoas que reproduzem a mesma opressão que sofreram:
pretos sendo racistas, gays sendo homofóbicos,
mulheres reproduzindo o machismo que as silencia.
Grileiros roubando a terra de quem só tem a terra.
Indígenas sendo exterminados como se ainda fosse século XVI.
Escravizados usados como mercadoria.
Pessoas traficadas, sim, traficadas,
para exploração dos seus corpos, órgãos e vidas.
Crianças matando adultos.
Adultos engravidando crianças.
Adolescentes tirando a própria vida.
Loucos expulsos de manicômios
e reenviados a instituições com nomes mais bonitos,
mas com a mesma lógica de exclusão.
A revolta diagnosticada como loucura.
A loucura ignorada como se não fosse humana.
Jovens condenados pelo contexto em que nasceram.
Mulheres mortas apenas por serem mulheres.
Casamentos por interesse.
Filhos por vaidade.
Fortunas construídas com verbas desviadas de quem tem fome.
Humanos que não se importam com outros humanos.
Que julgam sem saber.
Que se aproveitam da vulnerabilidade alheia.
Que se sentem superiores por ter dinheiro,
quando só têm isso.
Gente que mata quem pensa diferente.
Ou quem simplesmente tem coragem de ser diferente.
Tantos com tanto.
Tantos com nada.
Inocentes presos.
Criminosos soltos.
E eu me pergunto:
O que estamos fazendo nesse mundo?
Qual é o propósito?
Qual o sentido de viver?
De estar vivo?
O que é ser humano, afinal?
Como transformar tanta violência?
Como recuperar tanta ferida?
Quanto mais procuro respostas, mais perguntas surgem.
Quanto mais quero acreditar, mais duvido.
Quanto mais tento me proteger, mais percebo que estou no fundo do buraco que a realidade escavou.
Chego à conclusão de que o sistema foi feito para alienar.
Porque encarar a verdade exige um tipo de coragem que a maioria não tem.
Ou não quer ter.
E quem bebe da fonte da verdade… dificilmente volta ileso.
Talvez a humanidade realmente não tenha dado certo.
Talvez não haja propósito.
Nem sentido.
Nem redenção.
Talvez a ignorância seja mesmo uma benção.
Talvez os bons sejam os tolos.
Talvez o bem só apague incêndios.
Talvez as tragédias sejam apenas tragédias,
e não oportunidades de mudança.
O que mais me incomoda é que tudo isso me parece tão injusto.
Mas talvez… nem justiça exista.
E diante de tantos talvez…
Talvez a louca seja eu.
Escrito por mim, em um momento de fúria e descrédito da humanidade.
Karina Zeferino


