Memória olfativa

Minha avó tinha um cheiro só dela.
Na verdade, todas as pessoas têm. Mas nem todos os cheiros são inesquecíveis.
O dela era.

Mais que inesquecível, era um cheiro que eu queria sentir o tempo todo.
Contava os minutos para a hora da novela, depois do jantar, quando ela se deitava em um dos sofás da sala e meu avô no outro.
Com a desculpa de que não havia mais sofá livre, eu me enroscava nela, cabeça encostada em sua barriga.
Ficava ali, respirando fundo, sorrindo com os lábios e por dentro.
Sentir aquele cheiro me fazia bem — e eu nem sabia explicar por quê.
Talvez por isso eu gostasse tanto de dormir na casa dela.

Depois da novela, muitas vezes já permanecia ali mesmo, encolhida no sofá.
Ela me dava um beijo na testa, e eu adormecia no aconchego do seu perfume, dormindo até o amanhecer.

Tive um quarto na casa da vó antes mesmo de ter um na casa dos meus pais.
Lá, no início, dormia numa cama de montar na sala.
Mesmo quando ganhei um quarto só meu — com penteadeira, gavetas e espaço para brincar — ainda assim preferia o sofá. Era ali que morava o cheiro dela.

Conheci essa casa quando tinha por volta de cinco anos.
Era um dos imóveis de um hotel onde meu avô trabalhava como eletricista, cedido para os funcionários.
Durante anos, morei mais ali do que com meus próprios pais.
Passava a semana com os avós e ia para casa só aos finais de semana.
Essa rotina durou até meus 11 anos, quando comecei a estudar de manhã.
Foi então que meus pais se mudaram para uma casa maior, com um quarto só para mim — e pela primeira vez, tive um espaço que podia chamar de meu na casa da família.

Na adolescência, comecei a passar menos tempo com minha avó.
E foi justamente nessa época que ela adoeceu.
Em três meses, veio o diagnóstico de câncer e a despedida.
Era final dos anos 90. Naquela época, câncer ainda soava como sentença.
Eu tinha 15 anos.

O choque foi imenso.
A dor, dilacerante.
Tive depressão, mas ninguém nomeava assim.
Não sabia como enfrentar meus sentimentos.
Faltava muito à escola — quase reprovei, mesmo sendo boa aluna.
Continuei vivendo, mas tudo parecia suspenso no tempo.

Foram muitos anos de silêncio, choro e saudade.
Mas foi a terapia — e mais ainda, a escrita — que me ajudaram a elaborar tudo o que ficou.
Aos poucos, voltei a lembrar dela com sorriso.

Mas sabe o que nunca se apagou?
O cheiro dela.

Das minhas lembranças de infância, talvez não guarde tantas.
Mas as que envolvem minha avó são vivas, nítidas, impossíveis de esquecer.

Fecho os olhos e me vejo ali, de novo:
Deitada no sofá, cabeça em sua barriga, o coração leve
e aquele cheirinho bom preenchendo tudo.

Recorro a essa memória sempre que a saudade aperta.
Como hoje.

Karina Zeferino

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