Não, não precisa.

Vivemos em uma sociedade que adora um “precisa”.

Precisa ser magra.
Precisa ser forte.
Precisa acordar às 5h e ser produtiva antes mesmo do sol nascer.
Precisa amar seus pais.
Precisa perdoar rápido.
Precisa manter o relacionamento.
Precisa casar.
Ter filhos.
Precisa querer filhos.
Precisa ser ambiciosa, mas não demais.
Precisa ganhar dinheiro, mas continuar modesta.
Precisa ser espiritualizada, mas não esquisita.
Precisa cuidar da casa, do corpo, da saúde mental, do pet, da carreira, da dieta e, de quebra, da conta do banco — que, de preferência, já deveria estar bem recheada antes dos 30.

E a gente vai tentando cumprir tudo isso. Vai engolindo “precisos” como quem toma um comprimido todo dia, na esperança de se curar de uma inadequação que talvez nem exista. Vai moldando a vida para caber nos padrões — mesmo que esses padrões nunca tenham cabido na gente.

Mas, e se a gente dissesse: não, não precisa?

Não precisa acelerar seu metabolismo como se o seu valor estivesse no que a balança mostra.
Não precisa enrijecer ideias ou sentimentos para caber nas expectativas dos outros.
Não precisa sorrir quando está triste, nem silenciar o desejo porque disseram que ele é feio.
Não precisa renovar o guarda-roupa a cada estação se aquilo que você veste ainda representa quem você é.
Não precisa postar no Instagram suas memórias mais bonitas só para provar que elas existiram.
Não precisa colocar os pais na lista do casamento, se nunca colocaram você na lista das prioridades.
Não precisa confiar em quem compartilha o mesmo sangue, se o afeto não vem junto.
Não precisa manter amizades por lealdade a um passado que já não faz mais sentido.

E não, sua alma não precisa ser pura.
Ela precisa apenas ser sua.

A vida não foi feita para agradar espectadores. Foi feita para ser vivida — com coragem, imperfeição e liberdade.

E sim, liberdade também dói. Porque dá medo não seguir o script, perder gente no caminho, dizer “não” para o que o mundo aplaude. Mas ainda assim, é melhor o susto da liberdade do que a paralisia da adequação.

No fim das contas, você não precisa muito.

Só precisa criar uma vida que se pareça com você.
E se autorizar a ser a única pessoa que decide onde isso começa, onde isso termina — e quantas vezes pode mudar no meio do caminho.

Karina Zeferino

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