Naquele tempo

Durante muito tempo, algo me irritava profundamente:
estar em uma roda de amigos e ouvir pessoas relembrando o passado —
as festas, os eventos, as bebedeiras, os amores, os erros que viraram histórias.

Na época, eu era sempre a mais nova do grupo.
E quando alguém soltava a famosa frase
“naquele tempo…”,
eu revirava os olhos.

Parecia que o passado era melhor do que o presente.
E eu, ainda no início da vida adulta, queria viver o agora.
Queria colecionar as minhas memórias,
não apenas ouvir as dos outros.

Jurei muitas vezes que nunca faria isso.

Outra coisa que me incomodava era a rigidez dos adultos.
Sempre que eu questionava algo, me chamavam de rebelde.
E quando a geração acima da minha dizia que “os jovens estavam perdidos”,
eu me perguntava por que era tão difícil aceitar que a vida muda,
e que os mais novos também têm o que ensinar.

Anos se passaram.
E esses assuntos — antes tão presentes — foram se afastando…
Ou talvez tenha sido eu que me aproximei mais daqueles que vieram antes de mim.

Não sei quando aconteceu.
A verdade é que eu estava ali, vivendo meus conflitos,
ocupada com a minha rotina,
quando de repente percebi:
há uma geração inteira que veio depois da minha.

E com ela, opiniões fortes, ideias inquietantes,
expressões novas que eu não entendo,
e um ritmo que me cansa só de observar.

Será que eu era assim também?

Me peguei explicando que, na minha adolescência, era diferente.
Falando sobre coisas que nem existem mais.
E — o mais chocante — usando, sem ironia, a fatídica frase:
“no meu tempo…”

Onde foi que o tempo me alcançou?

Parece que foi ontem que desgarrei da saia da minha mãe —
e agora, em poucos meses, completo 40 primaveras.
Agora sou eu quem tem histórias para contar,
quem aconselha sobre a vida,
quem olha para os mais jovens e pensa:
“essa geração está perdida” — rindo de nervoso.

Tenho dificuldade de participar de uma conversa sem puxar alguma memória do passado,
e ainda mais dificuldade em entender a linguagem atual.
Já fui oficialmente rotulada de “cringe”.

Olho para os jovens com o mesmo ar de maturidade com que me olhavam um dia.
Julgo comportamentos que, no passado, eu mesma teria.
Sinto certa lentidão diante das mudanças —
sejam elas tecnológicas ou sociais.
O tempo passou, e agora… sou eu quem tropeça nele.

Mas, para ser justa comigo, reconheço:
não sou tão rígida quanto os mais velhos foram comigo.
Mas também não sou tão flexível quanto imaginei que seria.
E talvez, tudo bem.

O que a maturidade me trouxe —
e isso ninguém me contou —
foi segurança.

A liberdade de olhar para a vida e dizer:
“isso eu mantenho, isso eu quero aprender, isso eu prefiro deixar passar.”

Liberdade, para mim, é isso:
o poder de escolher.
De escolher o que me faz bem,
o que ainda me veste,
o que já não me serve.

E essa liberdade —
ah, essa não envelhece.
Não sai de moda.
E não se perde com o tempo.

Ela só chega depois que a gente entende
que cada fase da vida tem suas alegrias e suas dores,
e que não viver nenhuma delas,
é como ter partido antes da hora.

E essa escolha,
eu deixo para a vida.

Karina Zeferino

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