Vivemos em um mundo que adora extremos.
É mais fácil classificar tudo entre o bom e o ruim, o certo e o errado, o tudo e o nada.
Mas basta uma pausa — daquelas em que o silêncio ensina — para perceber que quase nada é tão simples assim.
Nem tudo que existe está certo.
Nem tudo que brilha faz bem.
O bonito pode esconder o amargo,
o gostoso pode ser o que adoece,
o barato pode sair caro,
e o intelectual… pode ser incapaz de enxergar o óbvio.
A vida está cheia dessas contradições.
Dessas verdades que a gente aprende só vivendo, ou sofrendo.
Nem todo “não” é uma negativa. Às vezes, é autoproteção.
Nem todo “sim” é uma escolha livre. Pode ser medo de decepcionar.
O magro pode estar doente, o gordo pode estar em paz.
E aquele que chora nem sempre está triste, às vezes, está apenas sentindo.
Assim como o sorriso não é garantia de alegria; pode ser escudo, pode ser performance.
A família, idealizada como ninho de afeto, às vezes fere.
Há mães que não amam, filhos que não pertencem, casais que não se tocam.
E há solteiros plenos, que se bastam e se transbordam, contrariando todas as estatísticas emocionais que insistem em rotulá-los como carentes ou incompletos.
Os extremos, por mais seguros que pareçam, são prisões disfarçadas de certeza.
Nos dão a ilusão de controle, de que tudo pode ser encaixado em categorias estanques, previsíveis, universais.
Mas o mundo — e principalmente o humano — é feito de meios-tons.
Entre o tudo e o nada, mora a nuance.
Entre o certo e o errado, mora a intenção.
Entre o bom e o ruim, mora o contexto.
Entre o sim e o não, mora o talvez, e às vezes o não sei, que também é uma resposta legítima.
O comum adora se agarrar às generalizações.
Mas é no incomum que a vida floresce: no que escapa, no que não cabe, no que desvia da norma.
É ali que habitam as possibilidades mais humanas, mais reais, mais profundas.
Por isso, desconfie das frases prontas.
Das regras absolutas.
Das verdades gritadas.
A vida não é feita de extremos.
É feita de atravessamentos.
Karina Zeferino


