Primeira lembrança da vida

Uma única flor de cabo comprido e pétalas cor-de-rosa.
É a primeira lembrança que tenho da vida.
Minha infância é marcada por ausências de memória, mas a imagem dessa flor está mais viva em mim do que o café da manhã de hoje.

Era final da década de 80. Eu tinha pouca idade e me recordo de ser levada para visitar a futura casa dos meus avós. A vontade era pisar na grama molhada pelo orvalho da manhã, mas paralisei ao ver, num quadrado de terra batida, uma única flor viva.
O que me chamou atenção foi o tamanho do cabo, que, na visão daquela criança, parecia quase do meu tamanho, um gigante silencioso me saudando.

Nos anos seguintes, vivi naquela casa todas as memórias que tenho da infância.
Corri muito com os pés descalços na grama. Pedia ao vovô que me trouxesse papelão para escorregar no barranco.
Adorava deitar no chão e decifrar as formas das nuvens.

Foi lá que, pela primeira vez, andei de bicicleta sem rodinhas e conheci a sensação de liberdade. O vento no rosto e a experiência de estar no controle do meu caminho me mostraram que eu queria sentir aquilo mais vezes.

Enquanto o cheiro do feijão cozido invadia a casa pela manhã, meu avô me ensinava a unir vogais e consoantes, e graças a ele, cheguei à escola já sabendo ler.
Naquele tempo, criança era matriculada no “pré”, mas com seis anos fui direto para a primeira série.
As nomenclaturas educacionais mudaram, é verdade, mas o que não mudou foi a importância daquele gesto: entrar na escola um ano antes mudou minha trajetória acadêmica inteira.

Nas férias, eu segurava um balde de alumínio pequeno e ia com minha avó até a amoreira.
Os pés e mãos manchados eram o preço da felicidade em comer minha fruta preferida direto do pé.
A cada amora que ia para o balde, duas iam para a boca e assim nosso passeio durava a tarde toda, só terminando quando Dona Cida me chamava pelo nome completo e me obrigava a parar de comer, jurando que eu ia passar mal.

Depois, no jantar, ela trazia uma linda jarra de vidro cheia de um líquido roxo e eu me exibia dizendo que ajudei na colheita.

Entre as árvores do quintal, minha avó pendurava duas redes onde descansávamos nas tardes de verão, época em que era quase impossível permanecer dentro da casa forrada com telhas Brasilit.
Mas eu tinha energia demais para repousar e preferia me balançar.
Foi então que meu avô pendurou um balanço de madeira ao lado da rede. Minha mãe conta que eu passava horas ali, conversando sozinha, mas discordo.
Eu conversava com meu amigo imaginário, o único companheiro que eu, filha única, tinha por perto.

Certa vez, enquanto me balançava, vi o Rambo, um doberman imenso que vivia com meus avós, com uma pedra na boca. Tive medo de que ele engolisse e fui tirar. Ele não gostou.
Me deu uma mordidinha leve na coxa.
Minha avó ficou apavorada, mas eu sabia: o Rambo só estava dizendo que não gostou da invasão de privacidade.
Éramos amigos. Crescemos juntos. Ele só me fez bem.

Mais triste foi o dia em que cheguei à tarde e vi Rambo caído na terra, com espuma na boca.
Ali aprendi, de forma brutal, que seres humanos podem fazer maldades de caso pensado.
Minha avó chorava inconformada, Rambo nunca tinha feito mal a ninguém. Era grande, marrom, de fuça invocada, mas era um bebezão que adorava correr em frente à casa.

Outra lembrança, nada saudável, me arranca um sorriso.
Aos domingos, no almoço, havia refrigerante — e eu esperava a semana toda para encher o copo de Coca-Cola e colocar duas colheres de açúcar.
Sim, duas!
Era uma competição entre as crianças da casa: quem conseguia tomar mais espuma, já que ela sumia rapidamente.
Hoje, adulta, sei que não faz nenhum sentido colocar açúcar em algo já doce. Mas, na época, aquilo era o auge da semana.

A “casa da vó”, como era carinhosamente chamada, foi meu lugar preferido da infância.
Tinha cheiro de cuidado, gosto de carinho e som de paz.
Plantas por todos os lados, árvores frondosas, canteiros floridos. Um abrigo.

Nunca mais vi aquela flor de cabo comprido.
No lugar onde ela estava, construíram a casa que me deu as melhores lembranças da infância.

Mas a imagem dela segue intacta na minha mente.
Como uma sentinela da pureza, da inocência, da simplicidade e da felicidade vivida no quintal da vó Cida e do vô Primo.

Karina Zeferino

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