Primeiro cabelo branco

Sempre tive o cabelo liso. Aquele liso cheio, mas ainda assim liso.
Enquanto 99,9% das meninas que eu conhecia nos anos 90 sonhava com um cabelo assim, eu queria ter cachos.
Cheguei a passar o dia todo com bobes só para ver os cachos se desfazerem em menos de duas horas.
Era prazeroso — e frustrante.

Mesmo assim, em todas as grandes comemorações da minha vida, lá estava eu: com o cabelo cacheado.
Anos mais tarde, entendi que os desejos costumam crescer na falta.

O cabelo, percebi, sempre marcou etapas.
E hoje, ao me olhar no espelho, soube naquele instante que não voltaria a me ver como uma jovem.
Encontrei meu primeiro fio branco.

Dizem que, diante de um acidente, a vida passa em segundos diante dos olhos.
Ali, no espelho do banheiro, como se tivesse aberto uma tela de projeção, 38 anos passaram diante dos meus olhos assustados.

Uma bebê que só chorava…
Uma criança que usava a mesma roupa até ela já não caber…
Uma adolescente tentando se encaixar no mundo…
Uma adulta lutando pelos próprios desejos.

Lembrei das brincadeiras de infância, aquelas dos nomes e números:
Qual a primeira letra do grande amor?
Com quantos anos vou casar?
Quantos filhos terei?
Qual será minha profissão?
Tudo antes dos 30, claro.

E aos 38?
Na visão daquela criança, eu já seria uma mulher de sucesso, feliz, com casa própria e pensando na aposentadoria.
Ela não pensava na cor do cabelo, mas acreditava que a vida estaria toda resolvida, porque a brincadeira não poderia falhar.

E, pra ser justa, dei check nas grandes áreas da vida.
Tudo antes dos 30.
Uma vida bem-sucedida, diriam os críticos de romances de banca.
Mas não. Porque aprendi, zerando essa lista de expectativas sociais, que sucesso não é sinônimo de felicidade.
E eu queria ser feliz.

Será que alguém pode recomeçar depois dos 30?
Era meu maior questionamento.
E toda vez que ele surgia, eu voltava a ser aquela criança com medo do escuro.

Mas já era adulta. Peguei uma lanterna.
Enfrentei esse escuro.
Rasguei a lista.
E iluminei o caminho que meu coração apontava:
Mudei de cidade.
Morei sozinha.
Enfrentei perrengues nada chiques.
Fiz amizades mais próximas do que alguns laços de sangue.

Entrei na terapia, chorei os lutos adiados, ressignifiquei traumas.
Fui tirando camadas, como quem descasca uma cebola, até chegar no centro de mim.

Comecei a sentir e desejar a vida que fazia sentido pra mim.
E como nada é permanente, conheci o amor.
Me apaixonei de novo.

Não sei quanto tempo fiquei ali, de frente para o espelho.
Fui despertada pelas minhas colegas de faculdade — com 22 anos — me chamando: a prova ia começar.

Pois é.
38 anos, um fio branco, e de volta à universidade.
Nem de longe aquelas brincadeiras da infância acertaram meu destino.
Mas elas me ajudaram a construir gaiolas que depois precisei destruir, ferro por ferro, para caber em mim.

Fazendo as contas, vou me formar aos 40.
Desejando ainda realizar muitas coisas.
E a única coisa que seguirá igual ao passado…
É que no dia da formatura, vou passar o dia inteiro com bobes, para dançar a valsa com o cabelo cheio de cachos.

Karina Zeferino

Table of Contents

Posts Relacionados

Uncategorized

CRÔNICA DE RUBEM ALVES

TÊNIS OU FRESCOBOL? Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os casamentos são de dois tipos: há casamentos do tipo tênis e do

Leia Mais »