São Paulo me chamou — e eu fui

Meu coração sempre bateu mais forte quando visitava São Paulo.
Era como se aquela cidade: cinza, barulhenta e viva,
me chamasse silenciosamente.
Como se uma parte de mim já pertencesse a ela.

Aos 33 anos, ouvi esse chamado.
Mudei de cidade.
Mudei de vida.
E, pela primeira vez, vivi sem interferência externa.
Sozinha e inteira.

São Paulo não é simples.
Não é uma selva de pedras, como dizem.
É mais que isso.
É concreta.
Real.
Autêntica na sua complexidade.

Não esconde suas falhas, não camufla suas dores.
Não passa a mão na cabeça de ninguém.
É como um bom professor: exige, provoca, forma.
Permite que cada um seja o que quiser,
mas cobra, sem piedade, as consequências.

É cinzenta mesmo com o sol rachando.
Fria mesmo em dias de calor.
Vazia, mesmo lotada.
E ainda assim, profundamente humana.

São Paulo me ensinou o valor do que deixei para trás.
A beleza do interior.
A importância de saber quem são os vizinhos.
A saudade de ver estrelas no céu.
Mas me ofereceu outra coisa:
gente que me estende a mão por vontade própria,
laços que se firmam sem sangue,
alianças entre estranhos que se reconhecem no caos.

Aqui vivi dias de luta e de glória.
Já almocei miojo em pé, e salmão em restaurante estrelado.
Andei de metrô lotado e já vi a cidade de helicóptero à noite,
ela brilha.

Frequentei botecos e o Teatro Municipal.
Chorei de cansaço e ri até a barriga doer.
Trabalhei 17 horas num dia e já me sentei sozinha na sarjeta da Paulista.
Estive em festas cheias de gente e dormi sozinha em datas importantes.
Fui feliz. Fui triste.
E, entre os extremos, me tornei quem sou.

São Paulo me abriu a mente,
e escancarou as portas da vida.
Confirmou o que, lá no fundo, eu já sabia:
era para eu estar aqui.

Entre sirenes, buzinas, fumaça,
entre cafés, padarias e restaurantes de todos os continentes,
entre passos apressados e olhares cansados,
há uma cidade que pulsa diversidade.

São Paulo não julga pela roupa nem pelo espelho.
Abraça quem chega com mala ou com a roupa do corpo.
É dura, mas rara.

Tem gente que ama odiar.
Gente que odeia quem fala mal.
E gente como eu, que simplesmente ama,
apesar de tudo.

Aqui, você pode se reinventar.
Pode fazer o que quiser.
Realizar, criar, errar, tentar de novo.
Aqui, você pode ser quem você é
e, se quiser, quem você nunca foi.

São Paulo já me pegou.

Hoje atravesso o farol correndo,
levo guarda-chuva mesmo com o sol forte,
falo “mano” sem perceber,
almoço virado à paulista na segunda-feira,
ando rápido porque aprendi que aqui o tempo anda sem pedir licença.

Já não tenho paciência com motorista lento.
Não me assusto com o som da sirene.
Guardo o celular no sutiã,
levo a mochila na frente,
considero a distância pelo tempo e não pelos quilômetros.

Vivo em estado de atenção,
até quando tento descansar.

Mas tem uma coisa com que não quero me acostumar.

Não quero me acostumar com o corpo dormindo na calçada.
Com a criança no farol lavando vidro na ponta dos pés.
Com as famílias se aquecendo com papelão.
Com os olhos invisíveis que pedem ajuda em silêncio.
Com o lixo sendo brinquedo.
Com a fome pedindo comida em cada quarteirão.
Com a injustiça se tornando paisagem.
Com a cidade que pulsa tanto e ainda assim…
abandona.

São Paulo me transformou.
Me confrontou.
Me ofereceu coragem.
E me ensinou a amar com os dois pés no chão.

Não sei o que o destino me reserva.
Mas você já mudou minha vida, São Paulo.

Eu te amo, e te respeito.

Karina Zeferino

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