Sobre ciclos que deixam saudade

Cinco anos reclamando daquela catraca.
Nos dias em que eu estava atrasada, parecia que ela conspirava contra mim.
Demorava para ler meu cartão e, depois, o QR Code — quando a direção tentou “modernizar” o sistema.
Ainda assim, em alguns dias, precisei passá-lo mais de uma vez.

Hoje, ao atravessar por ela, me dei conta de que em breve… não precisarei mais reclamar.
Vou me formar.

Nos últimos anos, minha vida virou do avesso.
Voltei a sentar nas cadeiras da faculdade já na meia-idade.
No intervalo entre estender a roupa e preparar o jantar,
escrevi resenhas, estudei para provas, revisei o TCC.

Na mesa do almoço, os livros foram tomando espaço.
E as horas de sono diminuíram —
às vezes por causa das demandas,
outras vezes por causa das dúvidas.

Trilhei um caminho de descobertas sobre o mundo —
e sobre mim.
Conquistei novas amizades, daquelas que parecem ter nascido do nosso lado.
Minha mente se expandiu — e às vezes explodiu — a cada aula de Psicologia.

Lembro exatamente do dia em que assinei a matrícula.
Sentada na secretaria, com a pasta verde da universidade nas mãos,
me senti novamente adolescente.
Coração acelerado diante de uma nova proposta de vida.

Não precisei fazer vestibular. Já tinha uma profissão estabelecida.
Mas ali dentro de mim, uma pergunta ecoava:
Que força é essa que se apossa de alguém aos 40 anos,
a ponto de desejar começar tudo outra vez?

Às vezes, a dúvida me assombrava:
Estaria fazendo a coisa certa?
Mas o que é certo?
Hoje vejo que um dos maiores aprendizados da Psicologia foi justamente esse:
para quase tudo na vida, a resposta é: depende.

Sim, tive medo.
Um frio me percorria ao pensar na longa jornada.
A incerteza sobre o futuro me rondava.
Mas a convicção de que aquele era o meu caminho gritava mais alto.

A pandemia chegou bem nessa hora —
e eu tive certeza:
se o mundo fosse mudar,
eu queria estar vivendo a vida que eu desejava viver.

Enfrentei os desafios do ensino remoto:
focar nas aulas pelo Zoom, fazer trabalhos em grupo pelo Meet,
provas no Teams, senhas que não funcionavam,
computador travado por excesso de abas abertas.

E ainda assim, o alívio chegou com o retorno ao presencial.
Abraçar as amigas. Tirar dúvidas cara a cara.
Rir nos vinte minutos de intervalo entre as aulas.
São dessas cenas que a memória guarda o que importa.

Algumas coisas foram engraçadas:
perceber a diferença geracional entre mim e a turma mais nova,
ou me dar conta de que os dramas que vivi aos vinte
não eram tão diferentes assim dos que escutava ali.

Outras experiências foram avassaladoras:
os estágios em escolas, delegacias, com refugiados,
nas organizações sociais, na clínica,
nas supervisões, especialmente nos plantões psicológicos —
tudo isso mudou a forma como vejo o mundo.

E me mudou também.

Hoje, me sinto com sede de atuação.
Sei que não vou salvar o mundo,
mas se puder fazer a diferença na vida de uma única pessoa,
já terei cumprido o meu propósito.

Sem perceber, os dias foram se desenrolando.
Os anos fluindo.
O décimo semestre, que antes parecia inalcançável,
agora está prestes a acabar.

Curiosamente, já não me lembro das crises que me tiraram o sono.
Só das transformações que me trouxeram até aqui.

A afinidade com o ofício cresceu.
A proximidade com os professores me ensinou para além do conteúdo.
E a iminência do fim traz um sentimento agridoce:
a vontade de mergulhar na nova profissão,
e a dor de fechar esse ciclo que me moldou como pessoa.

Há cinco anos, sentada naquela mesma secretaria,
eu poderia imaginar muitos cenários.
Mas jamais imaginei que aquela assinatura fosse meu passaporte
para uma outra vida —
dentro da minha própria vida.

E agora, chegada a hora de dizer adeus,
me surpreendo sentindo falta até da catraca.

Karina Zeferino

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