Quando eu era criança, me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse.
Me pediam para sonhar e fazer planos,
ao mesmo tempo em que impunham regras rígidas sobre como viver e conviver.
Na década de 80, quando nasci, descobrimos que podíamos escolher o que ser.
Mas essa escolha precisava ser certeira — afinal, seria para o resto da vida.
Na década de 90, quando cresci,
o medo de errar tornava qualquer impulso de criatividade uma ameaça.
Depois dos anos 2000, e com o mundo ainda em pé apesar das previsões,
a internet nos ofereceu novas perspectivas.
Aprendemos a olhar a vida por diversos ângulos.
Começamos a questionar crenças enraizadas,
a não aceitar mais preconceitos antes naturalizados,
a entender que aquilo que nos fazia sofrer não era só “coisa da nossa cabeça”.
Aprendemos a valorizar o passado para não repeti-lo,
a celebrar todos os corpos, cores e identidades,
a denunciar crimes antes silenciados.
E sim, passamos a meter a colher em briga de marido e mulher.
Mas, paralelamente a essas atualizações tão necessárias,
surgiu uma nova forma de cobrança:
a pressão para chegar aos 30 anos feliz e bem-sucedido em todas as áreas da vida —
familiar, acadêmica, profissional, social e emocional.
Simples, né?
“Se todo mundo tem as mesmas 24 horas,
você só não consegue se não quiser.”
Diziam os gurus da produtividade.
Aqueles que lucravam ensinando os outros a ganhar dinheiro,
mas ignoravam o peso da saúde mental.
Os mesmos que defendiam a meritocracia
e vendiam fórmulas prontas embaladas de culpa.
Pensando nisso tudo, percebi:
eu já fui muita coisa nessa vida.
Fui feliz na família, realizada na profissão, amada nos relacionamentos, cercada de amigos.
Até que tudo começou a mudar.
Ou melhor: algo em mim começou a mudar.
A satisfação profissional estagnou.
Meus interesses mudaram.
Meus afetos se transformaram.
Até meu paladar parecia outro.
Já não apreciava o que antes me encantava.
Mas mudar… dá trabalho.
Exige desagradar quem espera que você continue igual.
Pede coragem para sair da tal zona de conforto.
Requer esforço, dedicação,
e um conhecimento profundo:
sobre o que se quer, o que se pode,
o que se está disposta a abrir mão — e o que jamais se deve perder.
Não há nada mais verdadeiro do que: toda escolha envolve uma perda.
Eu não sabia exatamente o que queria.
Mas tinha clareza sobre o que não queria mais.
Com muito esforço, dei o primeiro passo.
E a partir dele, os outros vieram, embalados por uma angústia antiga —
e pela satisfação de, finalmente, escolher o meu caminho.
Mudei de casa.
Mudei de cidade.
Mudei de profissão.
Fiz uma nova faculdade.
Conheci novos amigos.
Vivi outros amores.
E encontrei meu grande amor.
Lutei para aprender.
Suei para conquistar novos espaços.
Me cansei nessa nova jornada —
mas era um cansaço físico, que se cura com descanso.
Bem diferente do esgotamento que sentia antes:
aquele era mental, silencioso e constante.
Deixei para trás a necessidade de agradar os outros.
Decidi agradar a mim.
Não foi fácil. Nunca é.
Nem toda escolha foi acertada — o fracasso também fez parte do caminho.
Mas valeu a pena. Tudo valeu a pena.
Sou uma pessoa melhor por ter escutado meu desejo
e dado voz ao meu coração.
Sou feliz com as mudanças que fiz — e com a mudança de ideia que me permiti viver.
E se um dia eu sentir vontade de mudar de novo, não demorarei tanto para começar.
Porque o caminho se faz caminhando.
E nenhuma teoria ensina tanto quanto a prática.
Karina Zeferino


