Sou da turma alfabetizada com gibis (1984)

Se tem uma coisa da qual eu gosto nessa vida, é de um pãozinho fresco no café da manhã. Desde que me mudei para São Paulo, nem sempre consigo ir à padaria logo cedo, mas hoje é sábado — e me dei esse presente.

Depois de garantir meu pão ainda quentinho — roubando um pedaço crocante do saquinho suado e vendo a fumaça se dissipar no ar —, notei uma propaganda de gibi em uma daquelas bancas antigas de jornal e resolvi entrar. Bateu uma nostalgia gostosa, daquelas que fazem a gente sorrir sem perceber.

Diante das prateleiras, lembrei da garotinha que fui, aprendendo as primeiras palavras na casa da vó Cida, com o vô Primo. Ele tinha uma lousinha verde e, com giz branco, me ensinava as letras do alfabeto. Eu era uma criança ávida por aprender e irradiava felicidade a cada palavrinha que conseguia ler sozinha.

Dois momentos me enchiam de orgulho: o primeiro era aos domingos de manhã, quando meus avós me levavam à missa e eu lia em voz alta os salmos. O segundo vinha logo depois, na banca de jornal. Enquanto meu avô comprava suas palavras cruzadas, ele me dava de presente gibis da Turma da Mônica. Eu me encantava com os desenhos, mas o que mais me fascinava era poder acompanhar os balões de fala sem ajuda de ninguém. Já me sentia grande por conseguir fazer aquilo sozinha.

Não lembro com exatidão quantos anos eu tinha, mas sei que foi antes de entrar no ensino fundamental. A primeira experiência escolar foi no Jardim II, quando completei cinco anos. Recordo bem o esforço que minha mãe fez para conseguir uma vaga direta na primeira série. A professora havia dito que eu não precisava passar pelo Pré, pois já dominava todo o conteúdo — e que, se ficasse, poderia até desestimular os colegas.

Mamãe peregrinou por várias escolas até conseguir uma vaga. Em 1991, com seis anos, comecei os estudos formais — um ano antes do previsto para a minha idade. Tenho plena clareza de que o esforço do meu avô, o olhar sensível da professora e a persistência da minha mãe fizeram toda a diferença na minha trajetória: foram eles os primeiros degraus que me levaram a conquistar meu diploma universitário, sendo a primeira da família a fazê-lo.

Não sei quanto tempo fiquei ali, parada, revirando as lembranças diante dos gibis. Até que uma propaganda na quarta capa de um deles me chamou atenção: “Quem foi alfabetizado com a Turma da Mônica levanta a mão.”

Levantei o gibi. E o levei comigo — junto com outros exemplares — como quem leva pra casa um pedaço de si mesma. Saí da banca carregando a sensação de estar, mais uma vez, perto dos meus avós que já partiram, e daquela menina pequena, curiosa, cheia de sonhos, que sabia pouco da vida, mas já tinha um desejo pulsante no peito: brincar com a Turma da Mônica.

Pena que, naquela infância vivida no interior de São Paulo, essa possibilidade ainda não existia.

Karina Zeferino

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