Tenho saudade da infância

Tenho saudade da infância, daquela criança que pisava descalça na grama, andava de bicicleta sozinha imaginando um passeio ciclístico e jogava futebol com os meninos.

Tenho saudade das noites em que minha mãe lia histórias antes de eu dormir. Por mais que eu já as tivesse decorado, não cansava de ouvi-las através da voz dela.

Tenho saudade do colo, do aconchego e do carinho da casa da vó, onde sempre havia pirulito de doce de leite no armário, refrigerante na geladeira e chocolate após o jantar. Dormia no sofá da sala como se fosse a melhor cama do mundo — e era.

Tenho saudade da menina que foi criada no meio dos meninos, jogava taco na rua, andava de carrinho de rolimã e vivia com os dedos luxados de tanto jogar bola.

Tenho saudade de esperar pela visita das primas, de brincar tanto e de tantas formas e, mesmo com muito amor, sempre acabar em briga.

Tenho saudade de quando mamãe me levava à piscina do clube, e eu pulava da borda em seu colo, uma imensa aventura, um mergulho amparado por seus braços aconchegantes.

Tenho saudade de escorregar pelo barranco com papelão e, depois, com os joelhos ralados, deitar na grama decifrando as formas das nuvens no céu.

Tenho saudade dos almoços em família, da mesa farta, da lasanha da vó, do pavê da Tata e da alegria de estarmos reunidos.

Tenho saudade da inocência e dos medos de criança, onde subir no foguete e descer pelo escorregador era o ápice da ousadia aos dez anos.

Tenho saudade de colocar os enfeites na árvore de Natal e esperar pelo Papai Noel, mesmo sabendo que eram meus pais que compravam o presente. Eu adorava a magia do Natal.

Tenho saudade da primeira lousinha onde aprendi o B-A-BA e comecei a ler e escrever com a ajuda do vô Primo. Ali, sonhava em ser a professora que um dia me tornaria.

Tenho saudade dos primeiros gibis que consegui ler sozinha, palavrinha por palavrinha, como se fosse a maior conquista do mundo.

Tenho saudade do amigo imaginário que conversava comigo e escutava minhas dúvidas infantis enquanto eu brincava no balanço, em meio às árvores.

Tenho saudade da primeira escola, do primeiro dia de aula e do primeiro livro didático, memórias marcadas do momento em que me senti grande dentro da minha pequenez.

Tenho saudade das brincadeiras no pátio da escola: pular elástico, amarelinha, ua-qui-qui… Nossa! Será que alguma criança ainda brinca disso?

Tenho saudade da primeira vez que toquei violão e de como minha perna ficou marcada pelas cordas, quando o virei para escrever os primeiros acordes.

Tenho saudade do cheiro do café que me despertava e do cheiro do feijão cozido ao entardecer, eles me traziam a sensação de segurança.

Tenho saudade da primeira vez que coloquei o uniforme de baliza, da ansiedade do primeiro desfile e da alegria de conseguir girar o bastão pela primeira vez.

Tenho saudade da inocência, quando não se tinha internet; ouvíamos fita cassete, alugávamos filmes na locadora, jogávamos baralho e montávamos quebra-cabeça para passar o tempo.

Tenho saudade do evento que era ir até o orelhão, depositar uma ficha, discar uma sequência de números e ouvir a voz de alguém que eu não sabia ao certo onde estava.

Tenho saudade do cheiro da felicidade, do gosto da aventura e do som da natureza em que cresci, em que vivi, em que fui feliz.

Tenho saudade de tudo o que consigo lembrar e de tudo o que a memória falha, mas o coração guarda.

Tenho saudade das fantasias inocentes, das idealizações inconscientes e dos sonhos incoerentes.

Karina Zeferino

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