Uma nova ruguinha

Hoje, ao te olhar profundamente nos olhos
algo que faço, em algum momento, todos os dias
com o simples desejo de reencontrar o mesmo olhar apaixonado que sempre esteve ali,
notei algo a mais.

Não encontrei apenas o olhar.
Encontrei, junto dele, uma ruga.
Uma marquinha fina, reta, que se estende a partir dos seus olhos
quando sorri ao encontrar os meus.

Contemplei aquela ruga com doçura.
E, confesso, com um tanto de alegria.
Participar do seu envelhecimento e permitir que participe do meu, é um dos grandes objetivos da minha vida.

Aquela ruguinha discreta me mostrou que o tempo passou.
Que já estamos juntas há tempo suficiente
para que o corpo comece a guardar lembranças visíveis.
E, ainda assim, nos escolhemos.
Todos os dias.

Aquela ruga me revelou que ainda te percebo como no primeiro dia.
E, ao mesmo tempo, com a profundidade de quem vê muito além.

Naquele instante, tive ainda mais certeza:
quero envelhecer ao seu lado.
E um dia, com os rostos cheios de marcas,
ainda assim olhar na mesma direção.

Fui até o espelho.
Procurei em mim uma marca que não existia há seis anos,
quando te conheci.

Encontrei várias.
No rosto.
Nas mãos.
E, principalmente, no coração.

Marcas que só eu sei o quanto me fizeram bem ao seu lado.

Percebi que por tanto tempo procurei sinais do universo.
Queria alguma resposta que me mostrasse
se o caminho que escolhi era o certo.

O que eu não imaginava
é que um sinal tão sutil no rosto da pessoa que amo
me daria a maior certeza que já tive na vida:
estou no caminho certo
porque ele está sendo trilhado com você.

E mais do que isso: quero perceber todas as suas mudanças.
Quero participar do amadurecimento do seu corpo,
das transformações do tempo,
das rugas, dos fios brancos, das lentidões.

E desejo que você participe das minhas também.

Sonho que um dia, já bem velhinhas,
a gente ande de mãos dadas, com passos arrastados e cabelos brancos,
pela Avenida Paulista, com destino ao cinema.

E que, com dentes firmes e gargalhadas soltas,
a gente ainda devore a pipoca como quem devora a vida.

Karina Zeferino

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