Luto, empatia e os limites do sentir

Nos últimos dias, o Brasil inteiro se despediu de uma mulher admirável: Preta Gil.
E junto com ela, partiu também um símbolo de coragem, afeto, liberdade, ancestralidade.
Quem a conhecia de perto perdeu uma amiga, uma filha, uma irmã.
Quem a conhecia de longe perdeu uma referência, uma presença, uma voz.

E, como em toda perda pública, vieram também os discursos. Os comentários. As postagens.
A dor, mais uma vez, virou palco.
E aí me peguei pensando: o que estamos fazendo com o luto e com a dor dos outros na era da exposição?

Uma amiga muito próxima da Preta escreveu:
“Agradeço aos convites para falar sobre ela, mas eu não consigo.”
E foi criticada.
Disseram que o momento “não era sobre ela”.

Mas será que não era?

Porque quando alguém morre, quem fica é que precisa continuar respirando entre os cacos.
Cada pessoa lida com o luto como consegue.
Tem quem se recolhe.
Tem quem fala.
Tem quem escreve, grita, compartilha.
Tem quem não consegue sequer nomear o que sente.

não existe certo ou errado nisso.
A Psicologia me ensinou – e a vida confirma todos os dias – que cada um tem um jeito de sentir e de sentir a dor.
E que tentar controlar a forma como o outro sente é, muitas vezes, uma tentativa de se afastar da própria dor.

Estamos vivendo um tempo em que a dor precisa ser explicada, justificada, moderada para não incomodar o feed.
Mas luto não é conteúdo.
É processo.
É rasgo.
É silêncio que ecoa.
É presença que falta até no ar.

E não cabe a ninguém dizer como ele deve ser vivido.

Se o luto alheio te incomoda, talvez seja hora de se perguntar o porquê.
Talvez você não tenha sido ensinado a nomear a ausência.
Talvez você nunca tenha tido espaço para dizer: “eu também perdi”.
Ou talvez você esteja tentando manter a ilusão de que as dores só pertencem aos outros.

Mas sentir não é egoísmo.
Sentir é humano.
E quando perdemos alguém, especialmente alguém que significava tanto, tudo o que precisamos é de espaço para sentir.

Que aprendamos a respeitar o tempo, o modo e o silêncio de quem fica.
E que a empatia seja mais alta que o julgamento.
Porque no fim das contas, toda dor, quando respeitada, se torna menos sozinha.

Karina Zeferino

Table of Contents

Posts Relacionados

Uncategorized

CRÔNICA DE RUBEM ALVES

TÊNIS OU FRESCOBOL? Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os casamentos são de dois tipos: há casamentos do tipo tênis e do

Leia Mais »