(Mês da Visibilidade Lésbica)
Ser visível não é apenas existir à luz do dia.
É ser lida com inteireza, sem rodapés que relativizem quem se é.
É andar na rua com a mão entrelaçada em outra mão e não sentir medo do que virá do outro lado da calçada.
A visibilidade, para mulheres lésbicas, não é um espelho… é um campo de batalha.
Porque estar visível é muitas vezes estar exposta.
É ter o corpo comentado, o desejo questionado, o amor sexualizado, o afeto deslegitimado.
É ser interpretada como ameaça ou fantasia, mas raramente como sujeito.
A socióloga Patricia Hill Collins fala da “política da respectabilidade”, essa exigência social de que mulheres negras, por exemplo, se portem de maneira “adequada” para serem respeitadas.
Ser lésbica também impõe uma norma paralela: ou você performa feminilidade para se camuflar, ou aceita ser lida como “masculinizada”, “agressiva”, “confusa”, entre muitas outras coisas.
Não há espaço para simplesmente ser.
E se visibilidade é potência, ela também pode ser cansaço.
Porque nem sempre queremos educar, explicar, defender.
Às vezes, só queremos existir sem sermos tema.
Sem sermos exceção.
Sem sermos fetiche.
A filósofa Judith Butler já dizia que o sujeito só se constitui dentro das normas que o reconhecem.
Se não há linguagem para nos nomear com dignidade,
nos tornamos o “inominável”.
Por isso, ser visível é um ato radical: é devolver nome ao que foi calado, é olhar para a própria história e dizer: eu existo, eu amo, e isso basta.
Em um mundo que nos quis discretas, a visibilidade é um grito, mas também é um poema.
É caminhar pelas ruas sem precisar esconder o sorriso apaixonado.
É ser chamada pelo nome certo, no pronome certo, com a intenção certa.
É amar outra mulher sem se desculpar por isso.
É ocupar lugares de fala e de afeto, não só nos palanques, mas nos cafés, nas festas, nas novelas, nos livros, nos consultórios, nas escolas, na vida.
Ser visível, enfim, é poder ser sem ter que se justificar.
Lembro do dia em que entendi o que era ser visível.
Não foi em uma militância. Não foi em um palco.
Foi descendo a escada rolante do shopping, num domingo qualquer, segurando a mão da mulher que eu amava e que continuo amando.
A mão dela cabia na minha como se tivesse sempre morado ali.
Era um gesto simples, quase banal, e ainda assim, o mundo pareceu parar.
Um casal nos olhou e cochichou.
Uma senhora franziu a testa.
Um homem passou por nós e disse baixo, como quem acha que está elogiando: “tinha que ser duas dessas mesmo.”
Ela soltou a mão por um segundo.
Mas eu apertei de volta.
Não disse nada.
Ela me olhou e entendeu: tínhamos uma a outra.
E ficou ali.
E eu entendi que visibilidade não é só o que mostramos.
É o que o outro escolhe ver.
E o que nós escolhemos continuar sendo, mesmo assim.
Naquele instante, entre o constrangimento e o amor, eu escolhi ficar. Nós escolhemos ficar.
Segurei firme.
Não por desafio.
Mas por merecimento.
Porque meu amor não é um erro.
É minha verdade.
Karina Zeferino


