Amar entre parênteses: o amor lésbico na entrelinha social

Nos ensinaram a falar de amor com exclamações.

A viver o amor como ponto final.

A esperar pelo “felizes para sempre”

como quem aguarda a linha de chegada.

Mas quando duas mulheres se amam, o mundo parece colocar esse amor entre parênteses.

(Amor, mas entre mulheres.)

(Casal, mas lésbico.)

(Mãe, mas só uma.)

(Família, mas diferente.)

É como se o amor que sentimos precisasse sempre de um asterisco, de uma explicação, de uma nota de rodapé.

Como se não fosse, por si só, legítimo, pleno, inteiro.

A escritora Monique Wittig, lésbica e feminista radical, dizia que a heterossexualidade não é apenas uma orientação, mas um regime político.

Nesse regime, tudo o que escapa à norma precisa ser corrigidosilenciadoreajustado ao centro.

E o amor entre mulheres — livre, múltiplo, potente — não cabe na gramática dominante.

É por isso que, quando se escreve esse amor, ele ainda aparece nas entrelinhas.

É sussurrado, não gritado.

É protegido, não exibido.

É privado, não representado.

Na adolescência, chamam de “amizade forte”.

Na mídia, muitas vezes é fetiche.

Na família, é “confusão”.

Na escola, é “má influência”.

Quantas vezes você amou e não pôde contar?

Quantas vezes amou e só pôde escrever com letra minúscula?

A psicóloga Valeska Zanello fala do “dispositivo do amor”, esse sistema que molda o desejo feminino para se voltar ao homem, como se fosse natural.

Assim, tudo o que escapa a essa lógica é tratado como exceção.

Como se amar outra mulher não fosse amor, mas uma fase, uma falha, uma fantasia.

Mas nós sabemos: nosso amor é texto inteiro.

Mesmo que o mundo insista em colocá-lo entre vírgulas, travessões ou colchetes.

Nosso amor é corpo, riso, rotina, saudade.

É briga, é cuidado, é promessa dita na porta do elevador.

É café na cama, é silêncio confortável, é desejo depois do jantar.

É tão amor quanto qualquer outro. Talvez até mais. Porque aprendemos a vivê-lo mesmo quando ele não tinha nome.

E agora escrevemos,

com todas as letras,

sem parênteses,

sem permissão…

Do jeito que desejamos!

Karina Zeferino

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