A construção da identidade lésbica e o rompimento com a heteronorma

Ser lésbica não é só desejar outra mulher.

É questionar toda uma arquitetura que ensinaram como natural.

É olhar para dentro e perceber que muito do que parecia escolha era, na verdade, script.

A heteronorma não é só um modelo de desejo.

Ela é um roteiro de vida imposto.

Namorar homem.

Casar com homem.

Ter filhos de homem.

E chamar isso de “felicidade”.

A identidade lésbica é, portanto, um desvio poético.

Uma rebelião silenciosa que começa quando estranhamos o roteiro.

Quando tropeçamos em nós mesmas e percebemos que não queremos seguir a linha reta —

queremos desenhar as próprias curvas.

A filósofa francesa Simone de Beauvoir disse:

“Não se nasce mulher: torna-se mulher.”

Talvez também não se nasça lésbica — mas se torne lésbica

à medida que se vai desatando os nós do que disseram ser amor, corpo, destino.

É um processo de desaprender para se reconhecer.

A psicologia crítica, especialmente os estudos queer e feministas, apontam que a sexualidade não é apenas expressão de um desejo natural, mas uma construção subjetiva atravessada por normas, medos, interdições e possibilidades.

E construir a identidade lésbica é como escavar um lugar onde o mundo disse que não havia espaço.

É fazer morada onde antes havia silêncio.

É se descobrir não apenas como quem deseja mulheres,

mas como quem rompe com o pacto que liga o corpo feminino ao serviço do outro.

Quando foi que eu percebi que minha vida seguia um roteiro que não era meu? Que o amor que esperavam de mim não nascia em mim? Que a mulher que eu queria ser, e a mulher que eu queria amar, não existiam naquele script?

Quando eu segui todo o roteiro e ainda assim não tive como resultado a felicidade que se alcança dando check na lista que a sociedade impõe. Precisei abandonar tudo de certo que tinha e me permitir descobrir quem de fato eu era sem a cobrança externa.

Ser lésbica é redefinir a mulher que somos,

fora da lógica da esposa, da musa, da namorada de homem.

É se amar para além do reflexo do masculino.

É amar sem hierarquia.

Sem necessidade de tradução.

Sem concessão.

É uma travessia,

que dói, sim.

Mas também liberta.

E refaz.

Karina Zeferino

Mês da Visibilidade Lésbica

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