Durante muito tempo, eu amei sem saber que podia.
Desejei em silêncio.
Admirei com medo.
Olhei demoradamente para outras mulheres e chamei aquilo de espelho, quando era amor.
Não é que eu mentisse para mim.
É que me ensinaram a não ter linguagem para o que eu sentia.
Não havia nome, nem filme, nem livro, nem conversa segura na mesa do jantar.
A representatividade não é só um direito.
Ela é um instrumento de reconhecimento.
Quando vemos o amor entre duas mulheres na tela, no livro, no mundo,
algo dentro de nós sussurra: existe espaço para você também.
Foi o que dizia bell hooks:
“O amor é um ato de vontade: tanto uma intenção quanto uma ação.”
Mas a vontade só nasce onde há possibilidade.
E é por isso que tantas de nós demoram a se permitir amar de verdade:
porque acham que não podem.
Porque nunca viram esse amor ser vivido com dignidade.
Histórias nos curam.
Histórias nos autorizam.
Histórias nos libertam de achar que estamos sós.
Às vezes é um casal na rua, de mãos dadas, sorrindo.
Às vezes é uma personagem em um livro, dizendo algo que parecia sua voz.
Às vezes é uma amiga que se assume, e de repente a coragem tem rosto.
O amor entre mulheres tem sido passado adiante assim:
como segredo que vira semente,
como sussurro que vira vento,
como silêncio que, um dia, vira nome.
E quando nos autorizamos a amar, não estamos só vivendo por nós.
Estamos dizendo a outras que elas também podem.
Karina Zeferino
Mês da Visibilidade Lésbica


