Durante muito tempo, me ensinaram que ser mulher era ser “para”.
Para agradar, para servir, para cuidar, para seduzir, para se adaptar.
Uma mulher se media pela forma como era vista, desejada, escolhida.
Ser mulher, diziam, era ser reflexo —
e esse espelho tinha sempre o rosto de um homem por trás.
Mas um dia, comecei a enxergar a mulher fora do reflexo.
Comecei a ver outras mulheres com outros olhos —
e a ser vista também com um olhar novo, sem moldura, sem moldes.
Foram essas mulheres —
amigas, professoras, amantes, escritoras, companheiras —
que me ensinaram a ser mulher de outro jeito.
Não mais objeto.
Mas sujeito.
A filósofa e ativista lesbofeminista Audre Lorde escreveu:
“Quando me atrevo a ser poderosa — a usar minha força ao serviço da minha visão — então fica cada vez menos importante se eu tenho medo.”
Antes de me entender como lésbica, foi preciso reaprender o que significava ser mulher. E foram outras mulheres que me ensinaram
que o medo pode ser enfrentado junto.
Que o desejo não precisa passar pela validação masculina.
Que o afeto entre mulheres é força ancestral, é sopro de reinvenção.
Elas me ensinaram que mulher não é função.
É corpo em movimento.
É escolha própria.
É identidade que não precisa se explicar para caber em nenhum nome de batismo.
Me ensinaram que entre mulheres há cuidado sem cobrança,
acolhimento sem disputa,
amor sem hierarquia.
E me ensinaram, acima de tudo,
que eu podia ser quem sou —
não apesar de ser mulher,
mas por ser mulher.
Karina Zeferino
Mês da Visibilidade Lésbica


