O preço emocional da pressa cotidiana

Não foram só coisas que sumiram.
Sumiram hábitos.
E, com eles, algumas formas de estar no mundo.

O telefone fixo, a locadora, a carta escrita à mão, a fila no banco.
Nada disso era apenas “coisa antiga”.
Eram pausas obrigatórias que a vida nos impunha.
Momentos em que a gente precisava esperar, lidar com o tempo, tolerar o silêncio.

O telefone ensinava limites.
Você ligava. Se ninguém atendia, era isso.
Não existia cobrança imediata, nem aquele vazio angustiante do “visualizado e não respondido”.
Hoje, quando alguém some, a primeira pergunta quase nunca é “o que aconteceu com a pessoa?”,
mas “o que eu fiz de errado?”.

A locadora ensinava paciência; e frustração. Você ia até lá, o filme podia não estar disponível, e tudo bem.
Você escolhia outro, voltava outro dia e ainda rebobinava a fita com caneta, pois se não tinha multa.
Hoje temos tudo o tempo todo…
e mesmo assim sentimos uma estranha incapacidade de decidir, de aproveitar, de nos satisfazer.

Cartas e mensagens longas criavam vínculo.
Escrever dava trabalho, exigia tempo, cuidado e intenção.
Também por isso pensávamos antes de falar.
Hoje trocamos centenas de mensagens rápidas, mas poucas realmente dizem algo que toque, acolha ou permaneça.

O tédio fazia parte da vida.
Esperar alguém.
Olhar pela janela.
Não fazer nada.
Era desconfortável, sim.
Mas foi nesse espaço vazio que muitas ideias nasceram,
que sentimentos eram organizados,
que a mente descansava sem culpa.

Hoje fugimos do tédio como se ele fosse um perigo.
Preenchemos cada segundo com estímulo, ruído, tela.
E, sem perceber, perdemos o contato com nós mesmos.

As coisas antigas colocavam limites.
Nem tudo era rápido.
Nem tudo era fácil.
Isso ensinava controle emocional, tolerância à frustração, ritmo interno.
Hoje tudo é imediato e qualquer espera vira estresse, irritação, ansiedade.

Não era melhor.
Era mais devagar.
E ser devagar não é ser atrasado.
É ter tempo para sentir, compreender, digerir o que acontece por dentro.

O mundo acelerou… e junto com a pressa vieram a ansiedade constante, a sensação de estar sempre devendo algo, sempre aquém, sempre atrasado.

E quando o corpo não aguenta mais correr, muitos não desaceleram. Afundam.
A depressão aparece não só como tristeza, mas como cansaço profundo, vazio, perda de sentido.
Como se a vida tivesse ficado rápida demais para ser sentida de verdade.

Hoje é tudo rápido… e raso.

O problema não é a tecnologia.
É o que deixamos pelo caminho sem perceber.
Abrimos mão de pequenas lições cotidianas que ensinavam presença, espera e profundidade.

E agora pagamos o preço em ansiedade, esgotamento e desconexão.

Talvez a gente precise recuperar algumas coisas.
Não para voltar ao passado.
Mas para aprender a viver melhor no presente.

Porque nem tudo que sumiu… precisava ter sumido.

Karina Zeferino – CRP: 06/224045

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