AOS 42 ANOS, CHOREI PELA PRIMEIRA VEZ.

Na minha sétima eleição presidencial, eu chorei.

Chorei porque estava diante de uma urna e, pela sétima vez na minha vida, tinha o direito de escolher, e para eu ter esse direito, outras mulheres foram muito corajosas antes de mim.

Chorei porque estar em uma democracia, poder entrar numa cabine, apertar alguns números e colocar ali, naquela escolha tão pequena e tão enorme, um pedacinho do que eu desejo para o futuro do Brasil me emocionou de um jeito que eu não esperava.

Eu chorei.

Aos 42 anos.

E não foi porque eu não sei em quem votar.

Foi justamente porque eu sei.

Chorei porque sou mulher e vejo o meu direito de votar sendo questionado, como se ainda precisássemos discutir se mulheres são capazes de escolher por si mesmas. Porque direitos conquistados não são necessariamente direitos garantidos. Eu sei disso olhando para a história. Sei que mulheres precisaram lutar para votar, trabalhar, viajar sozinhas, administrar o próprio dinheiro, se divorciar, decidir sobre a própria vida. Sei que não faz tanto tempo assim.

E por isso eu não consigo olhar para a minha urna como se ela fosse apenas minha.

Chorei porque sou casada com uma mulher.

Porque o meu amor não deveria precisar de coragem para existir em público.

Porque ainda existem lugares onde eu penso duas vezes antes de dizer que sou casada com outra mulher. Não porque tenha vergonha do meu casamento. Tenho orgulho dele. Penso duas vezes porque nem sempre sei quem está diante de mim, nem qual é a violência que pode existir por trás de uma opinião.

E porque eu sei que direitos conquistados podem ser tirados pelos próximos escolhidos pelo povo.

Chorei porque sou a primeira da minha família a fazer faculdade.

E porque eu sei exatamente que não cheguei aqui sozinha.

Tive uma política pública que abriu uma porta que, sem ela, talvez continuasse fechada para mim. Sou cria dos benefícios sociais. Eu sei o que significa uma oportunidade chegar na vida de alguém.

Por isso eu não consigo ouvir alguém dizer que pobre não estuda porque não se esforça.

Não consigo.

Eu estudei. E justamente porque estudei, aprendi que as pessoas não partem do mesmo lugar.

Chorei porque vi o Brasil voltar para o mapa da fome.

Vi gente fazendo fila por osso enquanto outras pessoas discutiam se pobre estava comendo demais.

E depois vi o Brasil pela segunda vez, sair.

Nunca faltou comida no meu prato. E é justamente por isso que eu não consiga aceitar que falte no prato de outra pessoa.

Eu não preciso ter passado fome para entender que fome dói.

Chorei porque sou mulher e ainda sou desrespeitada simplesmente por ser mulher.

Porque ainda existe quem ache que mulher vota mal. Que mulher precisa ser orientada. Que mulher precisa de um homem para traduzir o mundo. Que o nosso lugar precisa ser explicado.

Eu não aceito.

Chorei porque aprendi que ser mulher também é um ato político.

Chorei porque sou psicóloga.

Porque estudei psicologia social. Porque estudei o indivíduo dentro da sociedade, a sociedade dentro do indivíduo, as relações de poder, as desigualdades, os privilégios, a construção histórica das nossas escolhas.

E porque ter consciência de classe não é uma teoria bonita que eu aprendi na faculdade.

É olhar para a minha própria história e reconhecer os caminhos que se abriram para mim.

É saber que eu tive oportunidades que outras pessoas não tiveram.

É entender que privilégio não é culpa. Mas ignorá-lo é uma escolha.

Chorei porque conheço pessoas que vieram da comunidade e chegaram a lugares que pareciam impossíveis, mas também sei que essas histórias, por mais merecedoras que sejam, não podem ser usadas para fingir que a desigualdade não existe.

Porque a grande maioria ainda está lá.

Na trincheira da vida.

Tentando sobreviver.

E uma bala perdida pode atravessar uma casa, uma escola, uma rua e interromper uma vida em segundos.

Não existe meritocracia onde as pessoas não começam do mesmo lugar.

Não existe mérito capaz de explicar por que algumas pessoas nascem com todas as portas abertas enquanto outras passam a vida inteira tentando encontrar uma janela.

Chorei porque não encontro justificativa para uma concentração tão absurda de renda enquanto milhões de pessoas não sabem se amanhã terão comida, teto, remédio ou atendimento de saúde.

Chorei porque acredito no SUS mesmo podendo, em alguns momentos, ter acesso a serviços privados.

Porque eu sei que o meu direito à saúde não pode depender apenas da minha capacidade de pagar.

Chorei porque acredito na universidade pública.

Nas cotas.

Na educação.

Na ciência.

No Estado laico.

Na liberdade religiosa.

Na igualdade salarial.

No direito ao aborto seguro e legal.

Na possibilidade de cada pessoa constituir a família que quiser.

No direito de amar sem medo.

No direito de envelhecer com dignidade.

No direito de chegar em casa viva.

No direito de uma criança não passar fome.

No direito de uma filha de empregada ser doutora.

Chorei porque quero que a mulher possa escolher livremente o que ela quiser ser.

Chorei porque eu sei que o meu voto é secreto, mas a minha consciência não é.

É por isso que me emociono.

Eu poderia votar apenas por mim.

Seria mais fácil.

Poderia olhar para a minha vida, para aquilo que conquistei, para os privilégios que tenho hoje e pensar: está tudo bem comigo. Eu me viro.

Mas aprendi que uma vida boa só é boa quando pode ser boa para todo mundo.

Que não serei livre enquanto outras mulheres ainda estão acorrentadas.

E que nesta vida: viver é político.

Então não voto apenas pelo que eu preciso.

Eu voto também pelo que eu não preciso.

Pelo hospital que eu talvez não use.

Pela escola pública que talvez não seja a escola dos meus filhos.

Pelo benefício social que talvez eu nunca precise receber.

Pela cota da qual eu não precisei.

Pela mulher que eu não conheço.

Pelo homem que nasceu em outra realidade.

Pela criança que nasceu em uma casa onde falta comida.

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Pela pessoa que ama alguém do mesmo sexo e ainda sente medo de dizer isso em voz alta.

Pela pessoa negra que enfrenta um racismo que eu nunca senti.

Pela pessoa que trabalha seis dias por semana e mal consegue descansar.

Pela pessoa que não teve as oportunidades que eu tive.

Porque eu acredito que democracia não é escolher apenas pensando no que é melhor para mim.

É também reconhecer que existem milhões de pessoas vivendo uma realidade completamente diferente da minha.

Eu sei que muita gente vota para proteger seus privilégios.

Eu voto para que privilégio não seja confundido com mérito.

Eu voto para que aquilo que hoje é privilégio possa, um dia, ser direito.

Eu voto porque não quero um país onde todos pensem igual.

Quero um país onde pessoas diferentes possam existir em segurança.

Quero um país onde a minha liberdade não precise significar a perda da liberdade de outra pessoa.

Quero um país onde a fé de alguém não determine o direito de outra pessoa.

Quero um país onde o amor de uma mulher por outra mulher não seja tratado como ameaça.

Quero um país onde uma criança negra possa crescer sem aprender cedo demais a ter medo.

Quero um país onde ninguém precise provar que merece comer.

Quero um país onde ninguém precise pedir desculpas por existir.

E hoje, na minha sétima eleição presidencial, eu chorei.

Chorei porque percebi que, depois de tantos anos, continuo me importando.

Continuo indignada.

Continuo acreditando.

Continuo entendendo que o mundo não termina na porta da minha casa.

Chorei porque eu sou mulher.

Porque sou lésbica.

Porque sou psicóloga.

Porque sou filha.

Porque sou cidadã.

Porque estudei.

Porque tive oportunidades.

Porque sei que nem todo mundo teve.

Porque conheço a história desse país.

Porque sei que direitos podem ser conquistados e também ameaçados.

Porque sei que a fome existe mesmo quando ela não chega à minha mesa.

Porque sei que a desigualdade existe mesmo quando não bate à minha porta.

Porque sei que o sofrimento do outro não precisa acontecer comigo para que eu me importe.

E chorei porque entendo a dor do próximo.

E foi por essa dor, somada ao meu direito de exercer a democracia, que exerci o meu direito de votar.

Aos 42 anos, chorei pela primeira vez.

E, sinceramente, que bom.

Porque eu ainda tenho esperança. 

Karina Zeferino

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