CARTA ABERTA A QUALQUER PESSOA INTERESSADA EM UM DEBATE + PROFUNDO

Minha cara amiga conservadora, ou caro amigo conservador, talvez a gente ainda consiga conversar.

Você diz que acredita na família. Eu também.

Você diz que quer proteger as crianças. Eu também.

Você diz que quer segurança, emprego, saúde, educação e um país melhor. Eu também.

A diferença começa quando a gente se pergunta: melhor para quem, protegido de quê e a que preço?

Você diz que é contra a violência. Mas apoia uma política que repete que “bandido bom é bandido morto”, sem perguntar quais condições sociais favoreceram aquela trajetória, nem distinguir o enfrentamento legítimo ao crime da execução de alguém sem julgamento.

Quando o suspeito morre, há quem comemore. Quando a violência é praticada por um agente do Estado, há quem aplauda e condecore antes mesmo de saber o que aconteceu.

Então eu te pergunto: você é contra a violência ou apenas contra a violência praticada por quem você considera inimigo?

Você diz que é a favor da família. Mas talvez seja importante perguntar qual família.

Porque família também é a mãe que cria sozinha os filhos.

É a mulher que precisa de uma creche para poder trabalhar.

É a criança criada por dois pais ou duas mães.

É a menina que precisa aprender sobre o próprio corpo para reconhecer uma situação de abuso.

É a mulher que precisa decidir sobre a própria vida.

Mas quando você apoia uma política que define como legítima uma determinada ideia de família e transforma outras formas de existência em ameaça aos valores tradicionais, a consequência pode ser deixar de proteger famílias reais para começar a proteger apenas um modelo de família. 

Então eu te pergunto: você está defendendo a família ou uma ideia específica de como uma família deve ser?

Você fala em “respeitar o papel das famílias” e afirma que são os pais que decidem os valores que os filhos recebem. Ao mesmo tempo, propõe ampliar escolas cívico-militares e combater aquilo que chama de “doutrinação político-partidária”.

E eu fico pensando: quem decide o que é doutrinação?

Quem decide quais livros uma criança pode ler?

Quem decide o que um professor pode ensinar?

Quem decide quais histórias podem entrar na escola?

Porque uma escola que ensina a pensar precisa apresentar mais de uma visão de mundo. E pensamento crítico não deveria significar ensinar uma criança a pensar como o governo quer que ela pense.

Você diz que valoriza a educação.

Mas quando você trata universidade pública como espaço de doutrinação, professor como militante e pensamento crítico como ameaça ideológica, a consequência pode ser uma educação cada vez mais preocupada em controlar o que se pensa do que em ensinar a pensar. 

Então eu te pergunto: você quer uma escola que ensine respostas ou uma escola que ensine perguntas?

Você diz que é contra a censura.

Mas quando você apoia a retirada de livros porque considera seus temas inadequados, você contribui para criar um ambiente em que escritores e artistas passam a limitar a própria criação por medo de represálias. Afinal, quando o medo de desagradar determina o que pode ser escrito, publicado ou apresentado, a liberdade de expressão deixa de depender de direitos e passa a depender da aprovação de quem tem poder para impor limites.

Então eu te pergunto: se um livro que você ama fosse o próximo da lista, você continuaria defendendo a censura?

Você diz que quer proteger as crianças.

Mas quando você apoia o combate à educação sexual, às discussões sobre gênero e à abordagem da diversidade nas escolas, a consequência pode ser uma criança com menos informação para reconhecer abuso, violência e preconceito, além de mais dificuldade para se reconhecer.

Então eu te pergunto: proteger uma criança é protegê-la da informação ou dar a ela conhecimento para se proteger?

Você diz que luta pela liberdade. Eu também sou.

Mas liberdade para quem?

Para o trabalhador escolher quantas horas quer trabalhar, ou para o trabalhador economicamente vulnerável aceitar as condições que o empregador oferecer? Porque, quando a necessidade de sobreviver impede alguém de recusar condições abusivas, precisamos perguntar quanto dessa escolha é realmente livre.

Você diz que é contra leis trabalhistas. Então talvez seja necessário olhar também para quem terá poder de negociar com quem. Porque uma coisa é um empresário escolher sua jornada, outra é uma pessoa que precisa pagar aluguel, comida, escola e remédio conseguir “negociar” a uma jornada que o patrão oferece. 

Então eu te pergunto: é liberdade quando dizer “não” pode significar perder o emprego?

Você diz que acredita na vida e essa posição merece respeito, mas então precisamos conversar sobre todas as vidas.

A vida da mulher vítima de violência.

A vida da criança negra.

A vida da criança de 10 anos grávida de estupro dentro de casa.

A vida do indígena ameaçado por invasões.

A vida do trabalhador que morre em condições precárias.

A vida do preso.

A vida de quem depende do SUS.

A vida de quem herdou privilégios, terras, patrimônio e oportunidades construídos ao longo de gerações.

E a vida de quem descende de pessoas escravizadas, privadas do próprio nome, da liberdade e do direito de decidir o próprio destino, e que, mesmo depois da abolição, não recebeu condições equivalentes para reconstruir a vida.

Porque dizer “sou a favor da vida” é fácil.

Difícil é decidir quais políticas públicas vão proteger vidas concretas.

Quando você apoia políticas de encarceramento em massa, endurecimento penal, armamento e confronto policial, a consequência pode ser uma política em que algumas vidas passam a ser tratadas como descartáveis. 

Então eu te pergunto: quando você diz que é a favor da vida, está falando de todas as vidas, ou só daquela que ainda não nasceu?

Você diz que é a favor da liberdade.

Mas não aceita que alguém seja livre para amar uma pessoa do mesmo sexo, constituir sua família ou viver sua identidade sem precisar justificar a própria existência.

Quando você transforma a orientação sexual ou a identidade de gênero de alguém em ameaça à sociedade, a consequência pode ser fazer com que pessoas escondam quem são para continuar sendo aceitas, que adolescentes sintam vergonha de si mesmos e que famílias precisem lutar pelo reconhecimento que outras recebem sem questionamento.

Então eu te pergunto: se a sua liberdade depende de limitar a liberdade de alguém que não vive como você, estamos falando de liberdade ou de coerção?

Você diz que acredita no mérito.

Eu também acredito que esforço, dedicação e competência devem ser reconhecidos.

Mas quando você desconsidera que algumas crianças têm alimentação, moradia segura, livros, computador, tempo para estudar e uma escola estruturada, enquanto outras precisam dividir o tempo entre o trabalho, as dificuldades de casa e a tentativa de permanecer na escola, você está comparando trajetórias que nunca tiveram as mesmas condições.

A consequência pode ser transformar privilégios herdados em prova de mérito individual e desigualdades históricas em suposta falta de esforço.

Então eu te pergunto: é mérito quando a linha de largada não é a mesma para todo mundo?

Você diz que é a favor da liberdade de expressão. Eu também.

Mas quando você transforma essa liberdade em autorização para ameaçar, perseguir, desumanizar ou incitar violência contra quem é diferente, a consequência pode ser silenciar justamente as pessoas que também deveriam ter o direito de falar.

Porque a liberdade de expressão não pode significar liberdade para intimidar alguém até que essa pessoa tenha medo de existir publicamente.

Então eu te pergunto: você defende a liberdade de expressão de todos ou apenas o direito de dizer o que pensa, sem se responsabilizar pelo que diz?

Você diz que é a favor de diminuir a maioridade penal.

Mas quando a resposta para a violência é colocar adolescentes cada vez mais cedo no sistema prisional, sem enfrentar as condições que favorecem o recrutamento pelo crime, a consequência pode ser ampliar o encarceramento sem atingir quem comanda e financia as redes criminosas.

Então eu te pergunto: por que a solução começa pelo adolescente que está na ponta mais vulnerável e não pela investigação de quem organiza, financia e lucra com o crime? E quantos desses jovens terão uma segunda chance depois que o Estado decidir tratá-los como adultos?

Você diz que é contra taxar grandes fortunas.

Mas quando você rejeita qualquer aumento da contribuição de quem acumulou patrimônios muito elevados, enquanto milhões de pessoas dependem de serviços públicos e enfrentam dificuldades para pagar as próprias despesas, precisamos discutir quem deve contribuir e em que proporção.

A consequência de um sistema tributário regressivo pode ser fazer com que quem tem menos renda comprometa uma parcela maior dos próprios recursos com tributos, enquanto quem acumula grandes patrimônios dispõe de mais meios para proteger e ampliar sua riqueza.

Então eu te pergunto: você acredita que todos devem contribuir igualmente em valores absolutos ou que a contribuição deve considerar também a capacidade econômica de cada um?

Você diz que os Estados Unidos são o modelo que o Brasil deveria seguir.

Mas quando você idealiza outro país sem olhar para suas desigualdades, para os custos de acesso à saúde, para as diferenças nas proteções sociais e para os problemas que também existem por lá, a consequência pode ser importar soluções sem perguntar se elas atendem às necessidades da população brasileira.

E quando você defende a interferência de uma potência estrangeira nas decisões do nosso país, precisamos conversar sobre o que significa soberania.

Eu não preciso considerar o Brasil perfeito para acreditar que os brasileiros têm o direito de decidir seus próprios caminhos.

Então eu te pergunto: você admira políticas que funcionam ou acredita que um país que também não é perfeito terá uma solução fácil para nossos problemas complexos?

Você diz que é a favor das privatizações.

E as defende como se a transferência de uma empresa pública para a iniciativa privada fosse, por si só, garantia de eficiência e benefício para a população. 

Mas me diga: além dos indicadores econômicos, você avalia quem ganhou com cada privatização, quem perdeu, como ficaram os preços, a qualidade dos serviços e o acesso da população? Ou basta que o Estado deixe de ser dono para você considerar que o país saiu ganhando?

Você diz que quer um Estado menor. Mas menor para quem? 

Quando o Estado reduz sua atuação na garantia de direitos, quem pode pagar por alternativas privadas continua tendo acesso a serviços de qualidade. Quem não pode fica dependente do que resta. A diferença é que saúde, educação, saneamento e outros serviços essenciais não são apenas mercadorias: são condições para que as pessoas tenham oportunidades reais, independentemente de quanto dinheiro possuem.

Então eu te pergunto: um Estado menor é necessariamente um Estado melhor, mesmo quando essa redução amplia a distância entre quem pode pagar por seus direitos e quem depende dos serviços públicos?

Você defende um modelo de sociedade em que uma parcela pequena da população concentra uma riqueza imensa, enquanto milhões de pessoas enfrentam dificuldades para acessar moradia, saúde, educação e condições dignas de vida. A concentração de renda não é apenas uma questão de quanto dinheiro cada um tem: é também uma questão de poder, de influência sobre as decisões políticas e de capacidade de determinar os rumos da sociedade. 

Quando a riqueza se concentra demais, os interesses de quem tem muito podem ganhar mais espaço do que as necessidades de quem depende dos serviços públicos para viver com dignidade.

Então eu te pergunto: vale a pena priorizar o lucro financeiro de 2% da população em detrimento do acesso universal aos serviços de mais de 200 milhões de pessoas?

Você diz que quer desenvolvimento. Eu também.

Mas desenvolvimento não pode significar simplesmente extrair mais, construir mais, produzir mais e depois descobrir quem ficou com o lucro e quem ficou com o impacto ambiental.

Você diz que é contra privilégios.

Mas quando você perdoa uma prática porque ela foi cometida pelo político em quem você acredita e condena a mesma prática quando é cometida pelo adversário, a consequência é uma moral que muda conforme o lado político.

Então eu te pergunto: se é errado quando o outro faz, por que deixa de ser errado quando é alguém do seu lado?

Você diz que é contra a corrupção. Eu também sou. 

Mas combater a corrupção não é apenas condenar o adversário quando um escândalo vem à tona. 

É permitir que a investigação chegue aonde precisar chegar, mesmo quando os suspeitos são pessoas do próprio partido, aliados políticos ou integrantes da família. 

Precisamos falar de corrupção sem escolher previamente quem merece ser investigado e quem merece ser protegido. O Mensalão não envolveu apenas o PT: houve condenados ligados ao PL, ao PP e a outros partidos. A Lava Jato também alcançou políticos de diferentes legendas, empresários e agentes públicos. E os escândalos não terminaram ali. Hoje, investigações sobre fraudes no INSS e sobre o Banco Master também levantam suspeitas que precisam ser apuradas, inclusive quando alcançam pessoas ligadas ao campo político conservador. 

É importante distinguir denúncias, investigações e condenações, porque elas não significam a mesma coisa. Mas uma coisa é inegável: é indefensável a ideia de que a corrupção tem uma única cor partidária. 

É justamente aí que precisamos distinguir o discurso da prática: uma coisa é permitir que a Polícia Federal investigue, mesmo quando as apurações atingem aliados; outra é tentar influenciar na autonomia de quem investiga, no andamento das investigações ou quais investigações podem avançar.

Não é o partido que define se um ato é corrupto, nem a conveniência política que determina quem deve ser investigado. Se queremos um país verdadeiramente comprometido com o combate à corrupção, precisamos defender instituições independentes, investigações sem interferência e a responsabilização de todos, sem privilégios e sem perseguições. 

Quando você transforma o PT no símbolo exclusivo de toda a corrupção brasileira, mas relativiza denúncias, investigações e condenações que atingem políticos do seu próprio lado, você não está combatendo a corrupção: está escolhendo quais suspeitas merecem sua indignação e quais podem ser ignoradas.

Uma sociedade que só exige transparência dos adversários e oferece silêncio ou justificativas aos aliados não está defendendo a ética. Está defendendo o próprio grupo.

Ser contra a corrupção apenas quando ela envolve o adversário não é ser contra a corrupção. 

É ser contra o adversário.

Você diz que é contra a impunidade. 

Mas quando você apoia que pessoas que degradaram o espaço público pedindo intervenção militar e golpe de estado sejam perdoadas, enquanto o pai de família que pegou um litro de leite no supermercado para alimentar seus filhos fica preso por anos, é no mínimo hipocrisia.

Fora algumas categorias imunes as consequências de seus atos: como o investidor empresário que manipula informações a seu favor, os políticos que alimentam o crime organizado e os servidores públicos que corrompem o sistema por dentro.

Eu também sou contra a impunidade, mas que a lei e a justiça sejam aplicadas a todos.

Você diz que acredita em Deus. E você pode.

Mas o Estado não pertence a uma religião. A sua fé pode orientar sua vida, seus valores e suas escolhas. A minha também pode. O problema começa quando você apoia que convicções religiosas particulares orientem decisões que atingem pessoas que não compartilham da mesma fé, porque a consequência pode ser transformar a liberdade religiosa de todos na imposição da religião de alguns.

Então eu te pergunto: se o Estado tivesse uma religião diferente da sua, você ainda defenderia que a fé definisse as leis?

Você diz que é patriota. Eu também amo este país.

Mas quando você apoia políticas que enfraquecem a proteção ambiental, reduzem a estrutura de fiscalização ou aceleram a exploração dos recursos naturais, a consequência pode ser um país mais rico em recursos e mais pobre em floresta, água, biodiversidade e territórios tradicionais. 

Então eu te pergunto: amar o Brasil é apenas defender o território ou também cuidar daquilo e daqueles que existem dentro dele?

Patriotismo não deveria significar apenas uma bandeira verde e amarela no perfil.

Patriotismo também é defender a escola pública para crianças que ainda vão com os pés descalços garantir sua única refeição completa do dia,

Defender a universidade para todos que são capazes de se tornarem ótimos profissionais, mas partiram de um lugar contrário ao dos seus filhos que tiveram segurança garantida em um teto com cama para descansar, comida para sustentar e tempo para se preparar. Cotas nunca foram sobre passar na frente quem não tem intelectualidade, mas garantir um lugar para aquele que partiu de um lugar muito distante,

Defender a ciência que já salvou muitas vidas descobrindo novos tratamentos ou erradicando doenças através das vacinas,

Defender a floresta que nos dá o respiro, o sustento e o material para a manutenção de tantas formas de vida,

Defender os povos originários indígenas que já estavam habitando as terras com seu modo de viver em comunidade que nós nunca tivemos a capacidade de replicar,

Defender a cultura que de diversas formas promove a transformação humana e social, estimulando o pensamento crítico, a empatia, o senso de pertencimento e ainda movimenta a economia gerando empregos e movimentando a cadeia produtiva,

Defender a literatura que promove a expansão da capacidade de reflexão e da empatia, permitindo que o leitor compreenda diferentes perspectivas de mundo e nomeie suas próprias experiências humanas,

Defender o SUS que garante atendimento universal e gratuito no ponto de uso, da atenção básica aos procedimentos de alta complexidade,

Defender a liberdade de imprensa, garantindo que os cidadãos tenham acesso a informações confiáveis para participar da vida democrática com consciência,

E principalmente defender que as instituições sejam independentes e impeçam que qualquer governo tenha poder demais, garantindo estabilidade, imparcialidade e previsibilidade no funcionamento de um Estado, protegendo as decisões de pressões políticas ou interesses privados de curto prazo.

Quando alguém propõe limitar decisões do Supremo, restringir quem pode provocar a Corte e alterar suas competências, isso pode ser apresentado como uma busca pelo equilíbrio entre os Poderes. E discutir os limites e as atribuições das instituições é legítimo.

Mas mudanças dessa dimensão precisam ser debatidas publicamente, respeitando a Constituição e preservando a independência das instituições.

Porque o Supremo não existe apenas para proteger quem está no poder. Também pode ser chamado a proteger quem discorda dele, quem denuncia abusos e quem vê seus direitos ameaçados.

Então eu te pergunto: se amanhã o governo que você apoia tentar restringir um direito seu, você quer encontrar uma instituição independente ou uma instituição que dependa da vontade de quem governa?

Aliás, você como mulher, me parece legítimo poder dar sua opinião, já que pode abrir a câmera do seu celular e falar livremente na internet, se colocar a frente de um público, ser CEO de uma empresa, andar sozinha na rua, viajar, estudar, trabalhar ou escolher não ser nada disso e cuidar da casa. Mas, enquanto você exerce essas liberdades, há movimentos políticos que contestam direitos conquistados pelas mulheres e defendem um retorno a papéis de gênero mais rígidos, nos quais a autonomia feminina fica subordinada à autoridade familiar. Primeiro do pai e depois do marido com quem, o pai, decidiu que se casaria, teria quantos filhos Deus quisesse e para realizar qualquer desejo precisaria da aprovação do marido. E nessa época sua opinião e voz não valiam e se fosse violentada ou morta, a culpa era sua.

Você diz que é contra o feminismo.

Mas você pode votar, estudar, trabalhar, administrar o próprio dinheiro, escolher com quem se relacionar e decidir os rumos da sua vida em uma sociedade na qual mulheres precisaram lutar para conquistar direitos que hoje parecem naturais. O feminismo não tornou todas as mulheres iguais, nem resolveu todas as injustiças, mas questionou a ideia de que nascer mulher deveria determinar o tamanho dos seus sonhos, a sua liberdade ou o seu lugar no mundo.

Quando você trata o feminismo como inimigo da família, a consequência pode ser desqualificar justamente as mulheres que lutaram para que você pudesse escolher como construir a sua própria família, ou até escolher não constituir uma, escolher quantos filhos quer ter, ou até não ter filhos.

Então eu te pergunto: você precisa concordar com todas as feministas para reconhecer que os direitos que exerce hoje também são resultado de lutas que muitas mulheres travaram antes de você?

Você diz que empreender é difícil. Eu concordo que nem todo mundo nasceu com essa habilidade.

Mas quando você defende menos taxação e burocracia, e redução das leis trabalhistas, é para aumentar o lucro dos donos dos meios de produção e não para ascensão da classe trabalhadora. Aliás se você parar de trabalhar hoje, você tem condições de se manter até morrer? 

Não?

Pois esteja atenta ao chá revelação: você é classe trabalhadora. E são as leis, as políticas públicas e os sistemas de proteção social que ajudam a garantir direitos como descanso remunerado, aposentadoria e proteção quando você adoece ou sofre um acidente de trabalho.

Quer outro chá revelação?

Você como “classe média” está mais perto dos pobres do que dos ricos. 

Cuidado para não defender com tanta convicção os privilégios de quem está muito acima de você a ponto de esquecer a própria vulnerabilidade. A mobilidade social não apaga o caminho percorrido por quem veio antes de nós, nem garante que nossos filhos terão as mesmas oportunidades que tivemos.

Você pode defender mineração.

Pode defender agronegócio.

Pode defender exploração econômica.

E pode não acreditar em aquecimento global.

Mas também precisa responder:

quem fiscaliza?

quem licencia?

quem protege a floresta?

quem protege os povos e animais que vivem naquele território?

Então eu te pergunto: como pretende conciliar desenvolvimento econômico e proteção ambiental na prática?

Você diz que acredita na democracia.

Mas quando você apoia que uma eleição só é legítima quando o seu candidato vence, a consequência é destruir justamente a regra que permite que amanhã o outro lado também possa perder e continuar existindo.

Então eu te pergunto: você acredita na democracia ou apenas no resultado que gostaria que a democracia produzisse?

É esta a conversa que está faltando.

Não precisamos concordar.

Você pode ser de direita.

Eu posso ser de esquerda.

Mas deixo claro que não tenho político preferido, para mim todos são SERVIDORES PÚBLICOS, ou seja, FUNCIONÁRIOS DO POVO. Para defender as necessidades do POVO. Nada mais.

Você pode acreditar em menos Estado e que “quem se esforçar consegue”.

Eu posso acreditar em mais políticas públicas para diminuir a desigualdade social.

Você pode defender uma sociedade mais conservadora.

Eu posso defender uma sociedade mais progressista.

Nada disso, por si só, deveria nos afastar.

O que muda tudo é quando a divergência deixa de ser sobre políticas públicas e passa a ser sobre quais pessoas merecem direitos, quais vidas merecem proteção e quais instituições podem ser enfraquecidas em nome de um projeto político.

Porque aí já não estamos discutindo apenas esquerda e direita.

Estamos discutindo os limites do poder.

Estamos discutindo liberdade.

Estamos discutindo democracia.

Estamos discutindo que país queremos construir.

Você diz que quer um Brasil livre. Eu também quero.

Mas liberdade não é apenas poder dizer aquilo que eu penso.

É poder discordar do governo.

É poder ser ateu.

É poder ser religioso.

É poder ser gay.

É poder ser feminista.

É poder ser conservador.

É poder escrever um livro que incomode.

É poder ensinar uma ideia que alguém considera absurda.

É poder votar em quem você quiser.

E, principalmente, é poder continuar tendo esses direitos quando quem governa é alguém de quem você não gosta.

Então eu te pergunto: que tipo de liberdade você está defendendo?

Porque eu posso discordar de você sobre economia.

Posso discordar de você sobre segurança.

Posso discordar de você sobre educação.

Posso discordar de você sobre o tamanho do Estado.

Podemos discutir tudo isso.

Mas existe uma coisa que eu não quero negociar: que os direitos que valem para mim também valham para você.

Que a liberdade que você exige para si também exista para quem pensa diferente.

Que a vida que você defende seja a vida de todos.

Que a família que você protege não precise ser a família que você escolheria.

Que a fé que você pratica não precise ser a fé de quem governa.

Que a escola ensine nossos filhos a pensar, e não a pensar como nós queremos.

E hoje a questão não é:

“Você é de esquerda ou de direita?”

Até porque a posição política é muito mais complexa do que uma divisão entre dois lados. E nenhuma pessoa deveria precisar abrir mão da própria capacidade de questionar para pertencer a um grupo. 

Mas a decisão é sobre:

“Se o governo que você apoia tiver todo o poder que deseja, você ainda se sentirá segura quando esse poder for usado contra aquilo em que você acredita?”

E essa resposta diz muito mais sobre o tipo de democracia em que você acredita do que qualquer bandeira colocada na foto de perfil.

Karina Zeferino

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